Quando me entoam a cantilena do pôr-do-sol lembro-me logo de perguntar que marca é que patrocina o evento, porque a não ser publicidade paga, para que raio se há-de alardear a morte do dia?... 

Gosto é de auroras, de nascimentos, de actos pioneiros e únicos, engalanados de esperanças, mesmo que depois sejam vãs, mas que nem seja por uma dia nos façam sentir marinheiros de Quinhentos e Seiscentos em busca do desconhecido e enfim, das especiarias a preço mais barato como se fossem promoção de hipermercado. 

O Infante do chapéu grande gostava mais de marinheiros do que de escolas assim como eu gosto de descobrir algo novo em cada dia de sol porque nunca fui criança de chapinhar nas poças de água nem mulher de dançar à chuva, antes mais capaz de me ir encafuar num cinema para ver um Almodóvar.

Passarinhos





Podia a genética ter-me dado problemas nos dentes ou na tiróide, diabetes ou até cabelos brancos mais precoces mas o que essa ditadora me colou bem fundo na cabeça foi a imagem do meu pai.

Ainda hoje não fujo de desejar homens de barbas e aqueles olhos amendoados de cor indefinida, mais brilhantes que uma super lua, fazem-me uivar. Olho-o e sinto-me o sapal de Corroios almejando esse maçarico-de-bico-direito a bicar-me toda a carne e a introduzir-se nas águas em arrancos seguros de quem busca alimento, primeiro rápido e depois, devagarinho. 

E só quero repetir aquele colchão de penas latejante, mais e mais, antes do dia da partida desta ave migratória barbuda. 

Croché



Assim como assim são raros os homens heterossexuais que não nos olham como colchas de renda, lindas para se esparramar sobre uma cama, ou como toalhas de mesa de dias de festa para conferir algum luxo ao acto de comer.
Assim como no tempo das minhas avós era bem visto uma mulher falar francês e tocar piano, sinal que tinha a mentalidade de uma boneca de porcelana, também agora o croché vestido parece indicar um regresso ao passado, de quando os homens mandavam nas mulheres e daí não vinha mal ao mundo como nos mostraram os nossos pais e avós.
Talvez o futuro esteja nesse fio condutor, feito de linha de algodão ou de polipropileno, de fio de pesca, fio dental, fio de cobre ou cordel de embrulho aplicado à roupa de dormir ou de cama, para se ir puxando um a um para não mais ser possível fazer sexo sem preliminares.

Touros e mulheres


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A minha avó materna era natural da Vila do Touro, no Sabugal, e aficcionada de touradas a ponto de ficar pespegada frente aos ecrãs de televisão todas as quintas-feiras para ver a tourada que a RTP transmitia religiosamente nesse dia. Ela conseguiu que desde a infância eu detestasse aquela coisa bárbara e sangrenta mesmo que vista a preto e branco. Apenas os forcados ganharam o meu apreço porque se alguém quer dar cabo de si, está no direito de o fazer mas sem fazer mal aos outros.

Desde a infância que a tourada só me criava imagens de horror e fazia-me imaginar como seria se os touros fizessem o mesmo aos seres humanos. Ao crescer aprendi como historicamente se criou tal fenómeno de o homem enfrentar o touro e tomei para mim que ser civilizado é não pactuar com tal bárbarie.

Poderão dizer que não se podem extinguir as touradas por respeito a «comunidades inteiras deste país». Mas o meu problema é que além de adorar bolos sei que comunidades inteiras deste país nunca aceitariam pelo seu voto ter uma mulher como Presidente da República ou até Primeira-Ministra, pelo simples facto de ser mulher. A única mulher que foi Primeira-Ministra neste país, Maria de Lourdes Pintasilgo, não foi eleita mas nomeada ou nunca Portugal teria tido uma mulher nessa posição... por respeito a comunidades inteiras deste país.

Touros e mulheres, a mesma luta contra o marialvismo instalado em comunidades inteiras deste país.

Negras da praxe



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Assustam-me os bandos de raparigas de negro que nos últimos dias enxameiam Lisboa. Só me trazem à ideia os rituais ciganos da viuvez ou daquelas avozinhas já muito velhinhas de uma qualquer aldeia perdida na Beiras que perderam o marido há 400 anos, todas de semblante carregado.

Assustam-me e não é por se vestirem de negro que também o fiz nos anos 80 mas por se vestirem de igual, incluindo aquele instrumento de tortura que apelidam de gravata, ao ponto de usarem uns horríveis sapatos sem nada que os distinga a não ser o mau gosto. E aquelas meias de mousse ou de lycra apesar do calor que está apenas porque faz parte da farda.

Como se entrar na Universidade não fosse para usar a cabeça mas para seguir ordens, tal e qual como se pede aos instruendos militares, como se não fosse para produzir conteúdos mas apenas para projectar uma imagem austera de integração no Sagrado Mistério das Escravas de Qualquer Poder Instituído.