Tira nódoas



Ó Senhor Doutor, não existirá um tira-nódoas tão eficaz que nos remova da pele aqueles que a tocaram, acariciaram, lamberam e se entranharam em nós pela derme adentro e continuam a circular pelos nossos vasos sanguíneos?...

Quando se termina uma relação daquelas em que investimos todos os ossinhos, todos os músculos e neurónios primeiro fazemos um novo corte de cabelo, como se mudar a imagem capilar fosse renascer. Depois, vão de enfiada todas as depilações possíveis e massagens com tudo e até as sensuais pedras quentes como mézinhas para a nossa pele voltar à de bébé, limpa e sem memórias. E de seguida é desatar a copular com todos os pares de pernas e nádegas minimamente sedutores que ergam perante os nossos olhos um marzápio tão sedento de nadar na nossa piscina como nós de atulharmos o vazio das nossas paredes vaginais e do nosso céu da boca que a trilogia clássica é com mais tempo. É consabido que a satisfação imediata de uma agenda preenchida e em roda vida entre vários parceiros nos adrenalina e conseguimos voltar a olhar-nos nos espelho a medir a consistência do peito e a medir palmo a palmo o aveludado das nossas nádegas. 

Até que num momento, completamente despidos e já em amassos de carnes nos lembramos daquele que não era circuncidado perante a visão deste que o é e que também não tem aquele sinal de nascença no cimo das coxas e até a cor dos testículos era mais arroxeada e ó que porra que a excitação do momento desceu a graus negativos.

A minha inquietação Senhor Doutor, é pensar que como naquele filme O Despertar da Mente ou Eternal Sunshine of the Spotless Mind ou quejandos mesmo que apagasse as memórias era capaz de voltar a desejar o mesmo. Não irão mesmo inventar um tira nódoas para a paixão?...

Perorar



Perorar

Eu quero perorar, perorar perdidamente!
Perorar só por perorar: Aqui... além...
Sobre o futebol e a política e toda a gente
Perorar! Perorar! E não perorar sobre ninguém!

Eu quero perorar, perorar perdidamente!
Perorar só por perorar: Aqui... além...
Mais este canal e Aquele, o Outro 
Perorar! Perorar! E não perorar

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Expor ou ocultar? Convém?
Quem disser que se pode perorar bem
Durante a vida inteira é porque mente!

Se sou da opinião pública depositário:
É preciso perorar assim parasitário,
Pois se DDT nos deram um lugar, foi pra perorar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja o meu comentário uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Podia nunca ter acontecido



A minha mãe insistia que sexo só depois do casamento e casamento só na Igreja. O meu pai casava-se em qualquer lugar desde que não o obrigassem à confissão e o Padre Abel Varzim aceitou a condição pelo que o meu irmão nasceu um ano certo depois da cerimónia.

O projecto de eu ser a menina da família só aconteceu anos após a minha mãe resolver um qualquer problema oncológico que assim não impediu que eu crescesse no seu útero. 

Aos três ou quatro anos andei atrás da minha mãe pela Lagoa de Santo André até que um baixio me colocou a fazer glugluglu e a emborcar água salgada a rodos mas veio o meu irmão e salvou-me.

Aos dezassete anos fiquei com o período durante um mês mas o hospital recauchutou-me à razão de uma transfusão de sangue por dia durante 15 dias e lá continuei a ver o sol a levantar-se e a pôr-se.

Contudo, quero crer que um dia destes ainda morro mesmo.

Grosso modo



Grosso modo, já que parece que a grossura é o único tamanho que importa, as pilas são todas iguais. 
A diferença está na forma como lucubram.

Sinto falta...