97%


Dai uma mãozinha aos outros como a vós mesmos

Questão de piça

Alguém cujo nome começa por Piça não me parece adequado para a Eurovisão.
Não por ser puritana, valham-me os anjos todos da terra, mas porque no ano passado tivemos um Salvador a 13 de Maio e foi o que foi, de modo que agora colarmos-nos à IURD com uma piça pode mesmo dar uma «queca» muito grande, capaz de fornecer material para mais uma reportagem da Alexandra Borges na TVI.

Foto de José De Almeida.

A lógica

Comoveu-me ver as homenagens à equipa campeã europeia de Futsal. 

Tocou-me o trabalhar por objectivos, o trabalho de equipa. Antes do andebol, do Liceu e da Universidade me obrigarem ao trabalho de equipa, já jogara essa estratégia em casa. Tenho saudades da equipa a definir as metas e a concretizar os objectivos. 

E assim já tem lógica que tenham fracassado todas as relações em que me meti onde faltou o trabalho de equipa.


Insuflável



Os ditos eram mais que muitos e trocavam-se nos corredores durante os intervalos ou nas mesas do bar. Então já experimentaste o colchão?... E o melhor é que é insuflável, a frase que provocava a cúmplice gargalhada geral.
Mantendo a tradição ancestral de Letras as mulheres gracejavam a propósito do individuo que a troco de umas anotações das aulas, de um sorriso ou de um simples bora lá, dava o corpo ao manifesto para estudos mais aprofundados de anatomia, investigações detalhadas sobre as erupções vulcânicas masculinas ou aplicação prática do prazer orgásmico como potenciador do desenvolvimento das capacidades cognitivas.
Tinha a enorme vantagem de não ser território virgem e ninguém ir lá ao engano já que qualquer colega podia fornecer antecipadamente todos os pormenores para banir qualquer espécie de insegurança, incluindo um mapa das distâncias do pescoço ao umbigo e deste ao insuflável, a descrição da respectiva curva de nível, o gráfico de frequências e até um glossário para interpretar o significado dos sons guturais que ele emitia durante a actuação.
Já a minha avozinha dizia que quem boa cama faz, nela se deitará e cada vez me convenço mais que era um dito acertado que o homem hoje é membro da direcção de uma empresa pública.

Ponto de marmelo



O marmelo tinha uns trinta anos mas vociferava para o comensal da frente, segurança de profissão como ele, que a honra é que é o ponto. Contava em decibéis largos que tinha sido abandonado pela mulher com quem vivia há bastantes meses e infernizava-o ela ter feito questão de lhe comunicar a coabitação com outro, logo a ele, que era como o seu paizinho que nunca traíra a sua mãe, que ele bem o sabia, embora já ela, coisa que ele nunca lhe perdoaria, se tivesse metido na cama com outro homem que não o seu paizinho, mesmo tendo ela pedido desculpa e recordado que o pai lhe batia como ele vira tantas vezes e que não o podia abandonar a ele e à irmã mas que uma mulher não era de ferro e tinha de ter alguma alegria na vida.
O casaco do uniforme militarizado estava nas costas da cadeira e ele cofiava o cabelinho de um milímetro de altura enquanto desfiava o rosário de lhe ter tocado a ele uma coisa daquelas, a ele que nunca gostara de pretos desde os tempos da escola da Damaia e que teve logo de ir meter-se com uma brasileira. Branca claro, mas brasileira que só porque encontra um gajo mais giro o deixa logo apeado, a ele um defensor da monogamia, quanto mais não seja por causa das doenças.
Levou a mão à face para conferir a pele escanhoada e virou-se ostensivamente para a minha bica lhe ler o futuro, quiçá nas borras do café e lá tive de lhe responder que o futuro só podia ser um penso higiénico, branquinho e absorvente mas tão cheio de coisas putrefactas e fétidas que o mais ecológico seria reciclá-lo.