Wish you are in the sky with diamonds




Inegável que só lhe falo de homens, Senhor Doutor, essa espécie que uso para casar, para dar uma queca e para amar e se sempre tivesse sabido destas categorias teria poupado tanto em episódios depressivos.

Que mesmo que não o digamos pela boca fora sabemos que casamos com fulanos para formar uma empresa comercial, uma sociedade por quotas bastando para tanto que  invistam o seu capital nas compras semanais ou mensais, nas escolhas da família para férias, fins de semanas e todas as outras coisas que impliquem despesa e é suposto um casal fazer, para além de cumprirem a sua função de macho, mesmo que seja com a motivação que colocamos no preenchimento do IRS e eventualmente, acumulem com a reprodutora. A bem dizer, Senhor Doutor, são uma espécie de comida caseira como a das nossas avós.
Já os mânfios para dar um queca são o amante de domingo da Alexandra Lucas Coelho, a quem só exigimos que nos fodam como se não houvesse amanhã, que nos façam gemer enquanto nos amassam as mamas, nos sacodem as nádegas, nos enchem o pescoço de saliva e obviamente o clítoris, até atingirmos o clímax com a sua varinha de condão quase a tocar-nos o útero e a encher-nos toda a amplitude vaginal. É como uma gastronomia de festa, uma mariscada no Ramiro.

Os homens para amar são aqueles que podem até acumular as funções dos tipos anteriores mas que admiramos intensamente como pessoas, com os quais temos uma comunicação quase telepática, que cheiram a sensualidade nas palavras, nos gestos, nos olhares que nos fazem salivar a ponto da vagina ficar a latejar e qualquer minuto de comunicação ser um orgasmo. São os antidepressivos biológicos e amigos do ambiente.

Tivesse eu conhecido antes o Escitalopram, a pílula da felicidade como diz a minha farmacêutica, e nenhum dia teria sido menos do que bom porque depois da toma da manhã até o meu vizinho mais carrancudo parece sorrir para mim.



Uma imagem



Ai se ele soubesse!... Se ele soubesse que é a voz dele que me põe logo a escorrer gotinhas como uma torneira mal fechada. Se ele soubesse que são as ideias que a voz dele me transmite que ressoam em mim de tal forma que me assola uma vontade incontrolável de estender e distender os músculos vaginais enquanto decorre a comunicação como se fora uma genitália máscula a penetrar-me o corpo todo sem lhe escapar um porozinho que seja.

Que nós não usamos aquela modernice das chamadas com câmara pelo smartphone ou pelo skype, Senhor Doutor, que isso é uma invasão da nossa privacidade, da nossa intimidade. Com tanta imagem em circulação por aí, que são já milhões delas a entrarem-nos pelos olhos adentro, pela televisão, pela net, que usar isso seria vulgarizar a nossa imagem de um perante o outro.

Se ele soubesse que meto o dedo na boca nos espaços em que o ouço, contornando a ponta do indicador com a língua e pior, que às vezes me atiro para a cama, de barriga para baixo, para melhor erguer as nádegas e as agitar numa dança de rumba, salsa ou quiçá kizomba que está agora tão em voga, seria mau demais. Porque Senhor Doutor, nenhum homem gosta que uma mulher prefira a sua criatividade à sua virilidade física, não é?... 

Tira nódoas



Ó Senhor Doutor, não existirá um tira-nódoas tão eficaz que nos remova da pele aqueles que a tocaram, acariciaram, lamberam e se entranharam em nós pela derme adentro e continuam a circular pelos nossos vasos sanguíneos?...

Quando se termina uma relação daquelas em que investimos todos os ossinhos, todos os músculos e neurónios primeiro fazemos um novo corte de cabelo, como se mudar a imagem capilar fosse renascer. Depois, vão de enfiada todas as depilações possíveis e massagens com tudo e até as sensuais pedras quentes como mézinhas para a nossa pele voltar à de bébé, limpa e sem memórias. E de seguida é desatar a copular com todos os pares de pernas e nádegas minimamente sedutores que ergam perante os nossos olhos um marzápio tão sedento de nadar na nossa piscina como nós de atulharmos o vazio das nossas paredes vaginais e do nosso céu da boca que a trilogia clássica é com mais tempo. É consabido que a satisfação imediata de uma agenda preenchida e em roda vida entre vários parceiros nos adrenalina e conseguimos voltar a olhar-nos nos espelho a medir a consistência do peito e a medir palmo a palmo o aveludado das nossas nádegas. 

Até que num momento, completamente despidos e já em amassos de carnes nos lembramos daquele que não era circuncidado perante a visão deste que o é e que também não tem aquele sinal de nascença no cimo das coxas e até a cor dos testículos era mais arroxeada e ó que porra que a excitação do momento desceu a graus negativos.

A minha inquietação Senhor Doutor, é pensar que como naquele filme O Despertar da Mente ou Eternal Sunshine of the Spotless Mind ou quejandos mesmo que apagasse as memórias era capaz de voltar a desejar o mesmo. Não irão mesmo inventar um tira nódoas para a paixão?...

Perorar



Perorar

Eu quero perorar, perorar perdidamente!
Perorar só por perorar: Aqui... além...
Sobre o futebol e a política e toda a gente
Perorar! Perorar! E não perorar sobre ninguém!

Eu quero perorar, perorar perdidamente!
Perorar só por perorar: Aqui... além...
Mais este canal e Aquele, o Outro 
Perorar! Perorar! E não perorar

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Expor ou ocultar? Convém?
Quem disser que se pode perorar bem
Durante a vida inteira é porque mente!

Se sou da opinião pública depositário:
É preciso perorar assim parasitário,
Pois se DDT nos deram um lugar, foi pra perorar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja o meu comentário uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Podia nunca ter acontecido



A minha mãe insistia que sexo só depois do casamento e casamento só na Igreja. O meu pai casava-se em qualquer lugar desde que não o obrigassem à confissão e o Padre Abel Varzim aceitou a condição pelo que o meu irmão nasceu um ano certo depois da cerimónia.

O projecto de eu ser a menina da família só aconteceu anos após a minha mãe resolver um qualquer problema oncológico que assim não impediu que eu crescesse no seu útero. 

Aos três ou quatro anos andei atrás da minha mãe pela Lagoa de Santo André até que um baixio me colocou a fazer glugluglu e a emborcar água salgada a rodos mas veio o meu irmão e salvou-me.

Aos dezassete anos fiquei com o período durante um mês mas o hospital recauchutou-me à razão de uma transfusão de sangue por dia durante 15 dias e lá continuei a ver o sol a levantar-se e a pôr-se.

Contudo, quero crer que um dia destes ainda morro mesmo.