Calma (2004-06-11)

Pois Senhor Doutor... falar do 33!... Isso é mesmo um filme do Manoel de Oliveira, mas se é o que lhe parece, Senhor Doutor, está bem, eu falo!...

Ele tinha lido atentamente o Kama Sutra e todas as posições constantes nesse seu livrinho de cabeceira eram para serem usadas em todas as ocasiões e calmamente. Com ele não fazia sentido usar a palavra preliminares porque o que normalmente se faz disso, eram uma constante, em todo o durante, com ele. De vinte em vinte minutos mudavámos de posição. Ora nos lambíamos, ora nos penetrávamos. Ora nos abraçávamos fortemente, ora nos percorríamos suave e delicadamente com os dedos esguios das mãos. Não usávamos filmes porno, nem espelhos à volta ou no tecto mas olhavámos-nos longamente, digerindo pedacinho a pedacinho, cada poro do corpo do outro e colávamos os nossos olhos, no acto de nos fundirmos um no outro, parando a sequência vezes sem conta, para avaliar melhor o plano. Por vezes, até ajeitávamos a estética do movimento para melhorar a nossa visão de espectadores. Eram horas e horas com o Dark Side of the Moon em pano de fundo.

E gastámos quilómetros e quilómetros de película, por assim dizer, até ao dia em que ele começou a ficar muito branco, muito branco e felizmente senhor Doutor que eu já estava em cima e comecei logo a fazer-lhe mensagem cardíaca enquanto com o telemóvel entalado entre a orelha e o ombro chamava o 112.

0 comentários: