Intimidade (2004-01-17)


Sabe Senhor Doutor, era maravilhoso estar com ele. Víamos um filme do Almodovar e comentávamos cada plano, cada cena, cada peça do cenário. Líamos um livro do Saramago e analisávamos a importância de cada personagem no desenrolar da narrativa. Ouvíamos um CD do Caetano e falávamos horas a fio sobre os géneros musicais que ele abarcava e integrava no som próprio que produzia. Comíamos cachorros quentes entremeados de beijos e pintalgávamos caras, orelhas, pescoços e cabelos de manteiga e mostarda.

Nem me ralava nada que ele não resistisse a uns glúteos expressivos numas calças justas ou a um par amplo de seios saltitantes num decote-travessa. Já sabia que nessa altura os miolos lhe desciam ao sexo e só recuperava quando saíam liquefeitos em leite condensado. Verdade, verdadinha, Senhor Doutor, eu até me sentia bem naquela posição de porto de abrigo, de casa da floresta onde podemos sempre voltar para repousar.

O balde de água fria na minha paixão foi só quando descobri que uma outra lhe tinha espremido uma borbulha. Sim Senhor Doutor, porque a borbulha estava num local das costas onde ele não chegava com as mãos. E isso, Senhor Doutor, isso sim é intimidade!

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