O Escadote (2004-06-18)

Oh Senhor Doutor eu passava a vida a irritar-me com aquele umbigo do tamanho do mundo. Primeiro, tinha de tratar das actividades da associação cultural, depois tinha de dar os treinos de voleibol aos miúdos do clube desportivo, em seguida tinha a pesca da cooperativa de pescadores, mais a suecada todas as quartas à noite e, na minha modesta opinião, quem não tem tempo, não tem vícios. Ou por outras palavras, descobri que a minha vocação para servir de paciência na ocupação de tempos mortos era nula.

E depois Senhor Doutor, era chato como o caraças telefonar-lhe e dar de caras com o «do not disturb» pendurado na voz. Isto para já não falar do quanto se me eriçavam os cabelos de cada vez que eu me queixava de vulgares dores de cabeça e ele disparava, sempre, uma de duas frases: ou me questionava sobre a proximidade do dia da menstruação, que é a desculpa ideal para todos os problemas masculinos ou me mandava ir ao médico, como se eu não me lembrasse que ele religiosamente acompanhava a sua mãezinha a todas as consultas de rotina com o desvelo do bom filho.

Ah, Senhor Doutor... e ainda havia aquelas intermináveis prédicas sobre o sentido da vida, ditas com as certezas que só os catequistas têm e que lhe atafulhavam os seus próprios ouvidos como se fossem algodão. Foi por isso Senhor Doutor que após longos três meses, decidi que até gosto de mim e segui o conselho do Michael Moore: comprei um escadote de alumínio para alcançar as coisas arrumadas na última prateleira dos armários.

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