O Homem da Guerra (2004-01-20)


Ah isso, Senhor Doutor!... Bem...ele era um filho do pós-guerra. Da Segunda, claro, Senhor Doutor. Como tal também esteve na Colonial, a do boom dos mulatos apesar da cânfora que misturavam no vinho mas o instinto de sobrevivência é uma coisa lixada, não é Senhor Doutor?...

Era muito mais velho que eu e fazia todas as mesuras próprias da sua geração. Abria-me a porta do carro para entrar, enchia-me de chocolates belgas e de caramelos espanhóis, relógios e ramos de flores. Bebia sumo de laranja natural logo pela manhã para se atestar de vitaminas e conservava-se em álcool à noite com a ajuda de qualquer uísque com mais de doze anitos e sem pedra de gelo. Esforçava-se no acto por pronunciar o meu nome e não dizer aquelas coisas corriqueiras como linda, amor, querida ou o supremo mau gosto de filha.

Mas como já lhe disse centenas de vezes Senhor Doutor, a minha vida dava para mais dez filmes do Manoel de Oliveira e o plano fixo e calmo teve um desfecho que o próprio Camilo não desprezaria. Não é que o homem engravidou uma miúda de 18 aninhos e lhe deu uma paisite aguda?... Adorei assistir àquele casamento numa igreja engalanada com ele de fato e gravata cor de pérola e a noiva de branquinho e um véu descomunal. E ainda dizem que as mulheres é que são lamechas!

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