O Homem do Talho (2004-01-03)


Depois, Senhor Doutor começou a acontecer uma coisa muito estranha. Sempre que ia ao talho, pedisse eu o que pedisse, bifes, costeletas de borrego, lombo para assar, vinha sempre um brinde a acompanhar. Ele era um chouriço, uma farinheira, uma salsicha e até uma espetada. Esse facto associado ao sorriso fixo e de orelha a orelha do homem do talho levou-me a concluir que o negócio dele era mesmo carne. Não a do talho, mas a minha.

Depois, Senhor Doutor lá acabámos nós na cama. Quando ele se despiu, ai Senhor Doutor, se eu tivesse tomates tinham-me caído ali mesmo. O pénis dele era enorme, tão grande que só pensei que queria ter ali uma máquina fotográfica para depois poder mostrar às minhas amigas e elas não suporem que eu estava a mentir. Bastava uma daquelas que sai logo o retrato e assim também sabia logo se cabia todo no enquadramento. Mas à falta de máquina lá fui engolindo o meu espanto por aquele coiso que até de diâmetro a única coisa que me fazia lembrar era um vulcão. Será que explodia e lá ia eu ficar soterrada que nem Pompeia?... As perspectivas de fazer este cozido nas furnas afigurava-se um grande problema e tão maior quanto ele erguia como a tromba do elefante do Jardim Zoológico para recolher as moedinhas.

Mas sabe, Senhor Doutor, as coisas encaixaram e de tal forma que fomos repetindo como na canção das Doce às várias horas da manhã. E tudo corria bem não fosse a minha vida dar para mais 10 filmes do Manoel de Oliveira quando veio a maldição de Gomorra e Sodoma. O vulcão explodiu e abalou as estruturas todas. Lembrei-me das Doce e especialmente da Laura, aquela que só mexia a boca mas não cantava e como ela me vi nas urgências do Santa Maria rodeada de senhoras que aguardavam que os seus lulus perdessem o efeito de vácuo e de rostos indefinidos à espera de cuidados básicos que permitissem a saída de garrafas de Carlsberg, chapéus de chuva desdobráveis, busca-pólos e até facas de cabo de madeira redondo, escorrendo o menor sangue possível. Foi aí que me lembrei da minha avózinha que dizia que o mal estava sempre à espreita e não havia nada pior do que entrar dentro de uma pocilga, escorregar e esparramar a cara toda contra o chão.

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