O Jovem de Hollywood (2004-06-02)

Senhor Doutor, claro que nem sempre o Diabo está atrás da porta e às vezes vivi momentos delicodoces como musicais de Hollywood. Se eu recuar no tempo lembro-me daquele rapaz morenão, com os músculos todos no sítio, sempre vestido de preto, semelhante ao Gregory Peck da década de 50, que conheci na arrastada e imensa nuvem de fumo do Rock Rendez Vous.

Como mais tarde disse o Carlos Tê, nós «ouvíamos a mesma canção» e na época não perdemos o «Silvestre» e o «Sem Sombra de Pecado». Aliás, imitávamos o cinema na nossa intimidade. Lembro-me que foram muitas as vezes em que ele me pediu para imitar a Vitória Abril, descendo o meu ventre sobre a sua boca de lábios carnudos e língua sólida e ginasticada, nas tardes que passámos em quartos de pensão, daqueles com bidé à vista da cama e um pesado copo de vidro na prateleira, também de vidro grosso, sobre o lavatório. O «Conhecimento do Inferno», «A Explicação dos Pássaros» e até a «Memória de Elefante» ficaram bastas vezes espalmados entre o ruidoso e usado colchão de molas e as nádegas firmes e macias dele que as minhas mãos tacteavam enquanto me baloiçava sofregamente.

Lembro-me da frase habitual dele: «o meu amiguinho com 2 cérebros do tamanho de uma azeitona sempre que tem estes pensamentos em forma de leite condensado, fica vergado». E Senhor Doutor, leite condensado, sempre foi uma das minhas sobremesas preferidas... Nas vezes que lanchávamos em casa dos nossos pais, as tartes de leite condensado eram sempre uma cumplicidade mastigada a recordar os exercícios arriscados no elevador parado entre dois andares.

E depois, Senhor Doutor?... Depois, não há bem que sempre dure e mal que nunca acabe e uma estrada incluiu-o nas estatísticas da maior causa de morte em Portugal.

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