O Tempo (2004-07-27)

Oh Senhor Doutor, eu quero lá saber do tempo. Quero lá saber se é uma hora, um minuto ou um segundo porque há instantes melhores que a vida toda.

Eu recordo-me sempre daquele moreno de olhos profundos e risonhos com quem passei uma horas da madrugada a conversar sobre este mundo e o outro, a rir e a beber café de termos, enquanto esperávamos no passeio a abertura das portas para entregarmos a candidatura à universidade. De manhã, após depositarmos as ditas nas maõs das funcionárias responsáveis, saímos rapidamente para a rua e ala que se faz tarde que esta já passou. Parei e comecei a agradecer-lhe as horas divertidas, com um sorriso de orelha a orelha. Ele encostou-me o indicador esquerdo a ambos os lábios, impedindo-os de mexer e retirou-o para o colar nos seus. Beijou a polpa do dedo e sem despegar os seus olhos dos meus recolocou-o na minha boca. Com ambas as mãos, puxou-me pela nuca contra si e eu ergui o queixo entreabrindo os lábios para absorver a sua língua e levantei os braços, para lhe remexer nos cabelinhos. A sua língua lânguida parecia chegar-me ao esófago e todos os pelinhos do meu corpinho se eriçaram. Ele descolou e outra vez com o indicador, percorreu-me da base do pescoço até ao queixo. Mergulhou novamente na minha boca e os nossos ossos e músculos eram como um imã na porta de um frigorífico. Dissémos adeus com as palmas muito abertas como as daqueles desenhos que se mandam para o espaço em sinal de paz.

E Senhor Doutor, eu nem sequer sei quantos minutos durou, tanto mais que nem uso relógio no pulso por causa da minha alergia a metais não preciosos.


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