Os fantasmas (2004-01-02)


Senhor Doutor, casei-me nos anos 80, ainda a porteira do Frágil era gorda e não tinha fundado a associação dos lacinhos na lapela. Circulava muito pelo Bairro Alto, muito arroz doce, muitas primas - que por acaso são a Primita, a Conchita e a Carmencita - muito jimba, muitos pastorinhos.

Mas nem queira saber, é como lhe digo, a minha vida dava para mais 10 filmes do Manoel de Oliveira. Em casa, os fantasmas divertiam-se a desarrumar tudo. Eles faziam voar as tampas das panelas, os tachos, os fervedores e as panelas propriamente ditas. Era um desassossego naquela cozinha que nem imagina o que era aborrecido porque incomodava muito os vizinhos. E depois assustavam muito o gato que ficava com o rabito do tamanho de uma abóbora menina e desatava a correr pela casa toda e a miar muito alto que até parecia que naquela casa era Janeiro todo o ano. Era desagradável como pode imaginar.

Já no dia do casamento a mala da madrinha tinha voado do piano para os sofás aterrando no colo do Carlão que por acaso, não desfazendo, era um rapaz muito prendado em trabalhos de mão e de muito boa boca, calcando-lhe com um ímpeto de cerca de 5 quilos as bolitas. A madrinha até comentou que era mau sinal. Quer dizer, mau sinal a mal ter voado sozinha que nas bolitas do Carlão ela nem se atreveu a tocar.

E eu não sou supersticiosa senhor doutor, mas aquela casa dava-me azar e eu tive de me divorciar.

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