Dormir


Ó Senhor Doutor , tenho andado atormentada com o facto de dormir só. Apetece-me adormecer enroscada em alguém!... Não obviamente por aqueles gajos que passam tempos infinitos a dormir a nosso lado mostrando em cada gesto que os incomodamos, que lhes fazemos calor, que não há nada como um casal dormir em camas separadas. Garanto-lhe que também não é por aqueles marmelos que se mexem a noite toda, mas a dormir, para às páginas tantas nos atirarem com os braços e as pernas para cima, colocando seriamente em risco a nossa integridade física. Nem por aqueles que nos acordam a meio da noite com roncos capazes de fazer estremecer a estrutura de betão armado e toda a vizinhança do prédio ou na variante sonâmbula, em que não param de falar e até saltam da cama para se irem pentear ao espelho.

Ó Senhor Doutor, tenho mesmo é saudades de umas mãos dadas debaixo dos lençolinhos, de um aconchego morno dos corpos protegidos numa concha ou... quem sabe... de um cúmplice entrelaçar dos pés num abraço sentido...

Lá no fundo Senhor Doutor, bem lá no fundinho, eu não quero morrer isolada e ficar a apodrecer três quinze dias como se fosse restos de uma pizza ainda na caixa da entrega.

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