O Homem dos Brincos


Pois é Senhor Doutor, eu gostei daquele ano que fui trabalhar para trás do sol posto. A vida no campo tem os seus encantos, como os galos a cantar de manhã, os grilos a fazerem uma zumbideira estridente e nada desprezível, o facto de a maior diversão local serem as cambalhotas a qualquer hora do dia e em qualquer sítio.

Foi aí Senhor Doutor que eu conheci aquele homenzarrão, com as maçãs do rosto coradas, a exalar saúde por todos os poros como um touro. Porque sejamos claros Senhor Doutor, não é qualquer um que aguenta 4 horas seguidas a bombar, mesmo que se mudem as posições de cima para baixo ou de baixo para cima, de lado, de pé, de joelhos ou deitados. E o homem, Senhor Doutor, usava-as todas, sempre... e cheirava-me continuamente, capaz de sentir o cheiro primitivo que temos mascarado usualmente por um qualquer perfume de frasco estilizado. Para já não falar da forma como ele acarinhava o meu clítoris como quem come demoradamente cerejas, umas atrás das outras. Às vezes dava-me vontade de embrulhá-lho, pôr-lhe um laçarote e enviá-lo de presente às minhas amigas.

Mas Senhor Doutor, deixe-me contar-lhe que o homem ainda tinha o hábito de todos os meses me trazer um par de brincos perante a minha surpresa muda. Ele eram bolinhas, pendurezas de cores, florinhas encolhidas e tudo o mais que havia na ourivesaria da vila. E Senhor Doutor, a revelação deste filme cheio de planos lentos à Manoel de Oliveira é saber que o homem durante todos aqueles meses nunca tinha reparado que eu não tinha as orelhas furadas.

0 comentários: