Obras


O Senhor Doutor sabe que eu gosto de correr riscos. Excita-me o facto de contrariar o proibido como se isso fosse uma missão divina.

Por isso, quando caminhavámos pela Avenida da República fora ao cair da tarde e demos de caras com as obras de reconstrução de um prédio e sem os funcionários dos baldes de cimento e das medições, olhámos um para o outro com uma cumplicidade adolescente, averiguámos ao redor a escassez de traseuntes e escapulimos pela rede verde.

Lá dentro estava húmido e obscuro Senhor Doutor, mas sentia perfeitamente o cheiro da excitação dele. Caímos na boca um do outro como se as nossas línguas pudessem penetrar o outro pelo esófago numa acidez de maçãs. Os dedos dele trespassaram a minha saia na pressa de tocar os meus lábios orvalhados enquanto eu lutava com cinto, botões e fecho éclair para pegar aquele músculo que crescia nas minhas mãos. Encostada à parede recém-cimentada sentia-me pregada numa cruz, elevada às nuvens por um pedaço de carne que endurecia em mim com a ajuda de um duelo de línguas.

Mas Senhor Doutor, não fosse a minha vida argumento para filmes de Manoel de Oliveira e eu não acreditaria que estando nós a acabar de nos compôr, ponta de camisola aqui, ponta acolá, encararia com um polícia que nos pediu identificações, mirou e remirou-nos de alto a baixo, para o puxar a ele à parte e lhe sussurar «Ouça lá, você não a podia ter levado para uma pensão? »

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