Cintura

Senhor Doutor,
Tal como me recomendou, caso eu passasse estes dias fora, cá estou eu a escrever-lhe um email para o pôr a par dos acontecimentos.

Quando chegámos, eu estava a morrer de calor e de sede. Pedi-lhe que me indicasse a cozinha para poder beber água. Com aquele meu hábito de gato, abri a torneira, inclinei-me sobre o lava-louças e com a mão em concha, sorvia-a avidamente. Senti que me abraçava pela cintura e a descarga eléctrica de tal toque, fez-me baixar mais a boca sobre a água para em contrapeso, me levantar mais os glúteos. As mãos dele escorregaram pela minha saia esvoaçante e conduziram as minhas a voltar-me para um frente a frente. Penetrei aqueles olhos de avelã pela boca, num abraço que misturava indiscriminadamente cabelos, orelhas, pescoço, braços e nádegas. Ele soergueu-me as mãos para me retirar a blusa. Respondi desabotoando cada botão da sua camisa, enquanto ele se debatia com o fecho do meu sutiã, e sugeri ronronante que deixasse ficar a gravata. Num riso cúmplice, puxei o cinto para o chão e descobri o seu entusiasmo no meio de uns confortáveis slipes pretos. Colei as minhas costelas e coluna ao seu peito, dançando com as ancas e agarrei o lava-louças com ambas as mãos para, de mansinho, com a saia a cobrir-me o frio das costas, sentir que em mim desaguava a sua nascente, ora em calmas passagens, ora em bruscos sobressaltos.

Posso assegurar-lhe Senhor Doutor que a falta de vizinhança descansou-me quando vagi silabadamente Manuel João, antecipando a comemoração do Dia da Árvore que é só na próxima segunda-feira. Mas de efeméride em efeméride, adiantámos também a próxima terça-feira, Dia da Água e tomámos um banho de imersão cheio de espuma para poupar água, seguindo o conselho do nosso comum amigo engenheiro.

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