Linha quente


E então Senhor Doutor, ele declarou que eu tinha uma voz bonita. Imediatamente, coloquei a voz no tom quente, pestanejei duas ou três vezes e pupilas nas pupilas, repliquei-lhe que ia investir numa linha de valor acrescentado para usar em pleno essa minha capacidade e poder repetir a toda a hora que o lambia de alto a baixo, murmurar-lhe que o dele era tão grande e o maior que já tinha visto e gemer alto e bom som uns ós e ás, densos e prolongados. O espanto mudo dele, entre pegar no maço de tabaco e molhar os lábios na cerveja, apenas fez saltar a interrogação se não me custaria fazê-lo com estranhos.

Fingi não perceber a lógica subjacente e teorizei que como em qualquer linha de atendimento ao público, apesar de não se conhecer intimamente cada cliente, se procura a satisfação deste. E acrescentei que é fácil excitar um gajo desfiando de forma sussurrante e arrastada a ladainha «vou passar a minha língua, toda, da ponta da tua glande até às tuas bolinhas e do meio delas, vou voltar devagarinho, até cá cima e vou lamber a toda a volta, chupar só a pontinha e depois, pedacinho a pedacinho, engolir tudo».

Eu percebo Senhor Doutor que fui agressiva, mas o galanteio da voz bonita é como o dos olhos bonitos. Porque, oh Senhor Doutor, é como se mais nada houvesse para elogiar.

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