Abrigo de mãos

(Ao JQ, por Um dia em cheio)




Não Senhor Doutor, não tenho ido à Junta de Freguesia. Deprime-me ver tanta gente sem nada e não haver meios suficientes para as ajudar. Mesmo sendo, ironicamente, na área da freguesia de Santa Justa.

E com esta conversa Senhor Doutor, fez-me lembrar da Yuliya, uma ucraniana de longos cabelos loiros a condizer com a sua estatura de Big Ben londrino. Sabe que ela, antes de pegar ao trabalho, na amálgama de gentes indianas, negras e brancas do Largo do Intendente, aí por volta das dez da noite, passava sempre por aquelas arcadas do Martim Moniz, antes de chegarmos ao Salão Lisboa, para parar junto dos caixotes e cobertores do Viktor, um congénere seu que não conseguira trabalho e aguardava vaga para vender a Cais.

Quase todos os santos dias ela se ajoelhava junto do corpo dele, estendido num cobertor cinzento, desatava o cordel que lhe segurava as calças esfiapadas e com uma toalhita húmida lavava-lhe o pénis com requintes de o purificar de toda e qualquer excrescência mais ou menos esbranquiçada. Depois, de punho firme e forma enérgica, esfregava-lhe o membro para cima e para baixo como um elevador em dia de muito movimento, entremeando com compressões precisas dos dedos, apenas na pontinha. Nesses momentos, o azul escuro dos olhos dele reflectia os néons do Hotel Mundial e até o dono do bazar de incensos a que encostava os seus haveres não vinha fechar a porta da loja só para não incomodar.

Quando a mão direita de Yuliya ficava pastosa, ela pegava com a outra mão em lenços de papel para secar tudo como mata-borrão e com desvelo, enxugava-lhe o falo prestes a voltar a minhoca. Depositava-lhe um beijo na testa e levantava-se, ajeitava os cabelos com os dedos feitos pente e seguia em frente para a lida.

Ai Senhor Doutor, aquela mulher pegava mesmo o mundo pelas mãos.

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