Mecânico



«Eu acho que o sexo tem que ser entre pessoas que se amam, ou se gostam, ou se respeitem, ou então não se conhecem mas não têm nada mais para fazer entre as seis e as oito. Senão fica uma coisa mecânica, entende?»

Não garanto Senhor Doutor, mas acho que foi aí pelo final do quarto ano de casamento que as coisas começaram a amolecer. Deitavamos-nos, de pijamas vestidos, apagava-se a luz, encostavamos-nos um ao outro e como mais uma rotina de final do dia, o pénis dele deslizava para dentro de mim e depois saía. Mas ele amava-me Senhor Doutor e expressava-o todos os dias na forma como me beijava intensamente quando eu chegava a casa, no modo como me agarrava a mão quando íamos para todo o lado como se a epiderme fosse telepática, nos diálogos intermináveis que mantínhamos a propósito de tudo e de coisa nenhuma, nos «Cartier Vendôme» e «Gauloises» que me trazia sempre que os encontrava, em memória de Paris, a cidade cuja língua nos uniu apesar de nenhum de nós ser dela natural.

Só que uma mulher não é de ferro Senhor Doutor e na hora de almoço ou nos finais do expediente mais urgente, dedicava-me a debicar um jovem colega bastante imaginativo no que concerne a geometria de corpos, ora encostados às estantes, ora encavalitados nos sofás do gabinete do fundo, ora amachucando caixotes nos armazéns de materiais, ora aproveitando o automóvel estacionado em locais inauditos. Conhecia cada centímetro do seu corpo macio que as minhas mãos liam ao ponto de notar a falta de qualquer borbulhita entretanto falecida. Os seus dedos e a sua língua tanto me palmilhavam que os meus mamilos ficavam autênticas cúpulas góticas e quando a penetração se iniciava eu era mais um escorrega de parque aquático. Só que fora desses espaços de tempo nenhuma cumplicidade transparecia do rigor profissional, da análise metódica dos processos, das palavras ditas na presença dos outros.

E depois, Senhor Doutor, ficou uma confusão enorme na minha cabeça. O amor e o sexo são biologia, física, química, matemática ou um simples GPS?

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