O Respeito

Em todo o bairro, quer fosse no café do Sr. António, na mercearia do sr. Manel ou no restaurante do sr. Li Pei, tratavam-no sempre por senhor doutor, guarnecido com um cordial sorriso. A mim, Senhor Doutor, mimoseavam-me com um menina, a sublinhar a notória diferença de idades, não me fosse eu esquecer desse pormenor.

Às vezes, atirava com os saltos de agulha para o canto, calçava uns sapatos rasos, fazia umas trancinhas e ia passear para a mercearia a sopesar as laranjas e as maçãs das caixas da porta, para exibir o sorriso mais gaiato que conseguia.

Oh Senhor Doutor, aquele meu doutor era um cavalheiro respeitável que sempre que conseguíamos conjugar um furo na manhã me estendia no lençol almofado, para se enfronhar entre as minhas pernas como um gatinho a beber leite do comedouro, garantindo que em simultâneo as minhas mãos lhe amassavam os testículos enquanto a minha boca absorvia, gradualmente, o seu tubo de ensaio.

Ora Senhor Doutor, foi num dia assim em que a porta do quarto escancarava o tom da nossa pele e mostrava claramente o rabinho dele com uma mão minha lá alapada que ouvimos uma chave a rodar na porta. O trilho das nossas roupas, da sala de estar ao quarto, retirava qualquer dúvida do percurso evidente, tanto mais que o jovial sutiã azul celeste brilhava mesmo no hall de entrada. A dona Amélia entrou e entrecortadamente justificou que estava um lindo dia para ir estender a roupa que tinha deixado já lavada na máquina.

E sabe, Senhor Doutor, nem foi o mirrar da festa que me magoou mas as palavras daquela mulher, junto às caixas de correio, de olhos postos na chavita a repisar que o senhor doutor era um homem muito respeitável.

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