Encanecer

(em resposta a um desafio do Jorge Morais)


Recordo-me dos bigodes retorcidos e negros do meu bisavô exposto na sala da entrada da Sociedade Dramática daquele sítio debruçado sobre o Douro. Da minha bisavó não recordo nada que nessa época as mulheres ainda não ficavam para a posteridade.

Lembro-me dos fios de cabelo preto na calva do meu avô enquanto me mostrava os seus desenhos de gordos anjinhos com pilinhas minúsculas ou das anafadas graças, com todos os pneus delineadinhos, à beira de lagos com nenúfares, tudo decorado com frisos arte nova. Lembro-me dos poucos cabelos brancos da minha avó quando já contava 81 anos e trinta e tal sem vida sexual desde que lhe abriram o intestino grosso um palmo acima do umbigo, a despejar para um saquinho preso a um cinto elástico.

Guardo na memória o bigode e os cabelos escuros do meu pai quando me escondia as «pin-up’s» que desenhara na recruta e me exibia as suas ilustrações para livros infantis onde todas as meninas estavam desenhadas pelo meu modelo. E vejo a cinturinha de vespa da minha mãe nas fotografias da década de 50, antes de se casar e abandonar o atelier de costura da madame qualquer coisa, assim como vejo os cabelos brancos que nela despontaram aos braçados no ano em que o meu pai faleceu.

Foi por isso Senhor Doutor que quando numa manhã estremunhada, frente ao espelho da casa de banho, dei com três cabelitos brancos camuflados debaixo da franja logo os desenraizei com a pinça. Na minha família ninguém tem cabelos brancos antes dos 60 anos e eu não quero desmerecer essa herança genética.

NOTA: Hoje é o Dia Mundial da Próstata e lembro que não há como o toque rectal para um bom encanecer.

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