O prazer límpido

Ilustração para “An up-to-date Young Lady” um best-seller dos anos 20 e 30 por Helena Varley


O Bin d' A Mega Fauna oferece-nos hoje um sensual poema soprado numa brisa africana que é autênticamente...


O prazer límpido


Perguntavas,
Poderíamos
Caminhar juntos?
Ser simbiose
Ser eu
Ser tu
Ser nós?

Poderíamos
viver a entrega
absoluta?
O abandono
Dos corpos
e dos corações?

Caberia
a sensualidade
e o erotismo inteiros
dentro do nosso mundo?

Assim que cheguei
bem pela luz
da lua e da noite
da via láctea
servindo de tecto
perdi meu corpo
no nosso

No nosso cadeirão
de madeira
naquele que fora
de outros tempos
dos tempos de África
dos tempos da Matola
esse cadeirão que viajou
no tempo

Foi nele que me perdi sim
a olhar a lua que teimava
teimava em espreitar
com a sua luz cheia
trazia por companhia
uma brisa quente
sim daquelas quentes que cheiram
cheiram a Verão

No silêncio escutava
os grilos lá fora na seara
os estalidos dos animais
pequenos e leves

Ou seriam os leões
de Ngorongoro?

Cheirava a savana sim
Cheirava a mato sim
Cheirava a capim sim
Cheirava a terra queimada sim
Cheirava a ti
Ao teu ventre quente sim

Era beber-te que queria
Era beber-me que querias
Ali no canto do cadeirão
sobre a noite
a noite mais longa
a nossa noite
africana

Como os animais
nos aproximamos
nos cheiramos
ao som dos tecidos
translúcidos
que pairavam
ao vento das janelas

O teu cabelo ondulava
o teu vestido ondulava
leve ao vento

Eu imaginava,
a suavidade da tua pele
escondida por baixo
desse tecido que te cobria
quanto mais imaginava
mais sentia o teu cheiro
o cheiro do teu ventre
das tuas coxas
quentes e doces
e húmidas

O meu olhar semi-cerrado
continha o desejo
de te ter de te sentir
sentir a tua pele suave
quente e doce
e húmida
colada à minha
o roçar dos nossos corpos

Assim imaginava eu
numa noite de verão
no nosso cadeirão africano
em Ngorongoro
ao som dos ecos primitivos
dos animais selvagens
esses que despertam em nós
instintos selvagens
vontades imparáveis
desejos impossíveis de conter

O amor dos nosso corações
O amor perfeito
O nosso amor

Esse amor
que numa noite de verão
em África
nos levou por caminhos
de erotismo
de tecidos
de sons
de cheiros
de sabores
a roçar os nossos sexos
intensos de prazer
sedentos de nós

E que com a lentidão
com o ritmo africano
nos encheu
nos inundou
nos levou
À plenitude do amor
do prazer
da vida.

Ao prazer límpido
Da simbiose perfeita
dos corpos
E das almas que se encaixam
Assim
Perdidos no prazer.
Meu amor doce

Sabor
no meu sabor
Cheiro
no meu cheiro
Carne
na minha carne
instinto
no meu instinto

Assim nos amamos
assim nos queremos
assim nos desejamos
assim nos sonhamos


Bin


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