No hospital




Umas destas noites no Serviço de Urgência do hospital, num momento em que as ambulâncias tinham parado de trazer doentes, juntámos à mesa da ceia, um grupo de colegas com memórias comuns. Recordávamos aqueles episódios, que fazem história nas instituições.
A empregada da recepção que não atendia o telefone, porque não tinha uma extensão na ambulância do INEM, onde foi apanhada com o bombeiro, dizem as má línguas (porque a dela parece que era laboriosa), a fazer uma chamada, não se sabe se para Tóquio;
ou quando um dos colegas de serviço, preocupado com a angústia de uma jovem mãe que aguardava o tratamento do filho, a levou para sua casa, para que a espera fosse não só mais confortável, como também menos solitária;
ou ainda, o ex-libris do insólito, quando o Sr. Ernesto, maqueiro respeitado por todos, a poucos meses da reforma e depois de uma vida dedicada ao hospital, foi encontrado a violar um cadáver feminino na morgue. A necrofilia saía dos manuais de Psiquiatria, para saltar para a frente dos nossos olhos, personificada num dos mais respeitados trabalhadores da instituição. (Anos mais tarde, outra filia, havia de saltar para as páginas dos jornais com outros “respeitáveis” protagonistas).

As histórias entre médicos e enfermeiras são famosas e frequentes. Também eu não me livrei do assédio da atrevida enfermeira Nukia, uma linda japonesa de ascendência portuguesa. E nem me admirei quando, com toda a sua exuberância, me puxou para uma enfermaria em obras e, no meio de trinchas e latas de várias cores, se ajoelhou a meus pés. Ajoelhou e rezou, Maria … quando me olhou com os olhos de em bico, pousou o olhar no crucifixo esquecido na parede e, numa imperceptível ladainha, benzeu-se. Maldita evangelização.

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