Acústico


Tocava contrabaixo que era um instrumento proporcional à sua altura e largura enquanto eu me deliciava a ouvir aqueles acordes roucos riscados nas cordas feitos o meu tapete mágico para levitar sobre a cidade, sobretudo nas improvisações jazísticas dedilhadas.

Usualmente tratava-me por minha gatinha, autêntica música para os meus ouvidos e pauta para eu remover da sua frente o instrumento de cordas e percorrer uma escala de ronronadelas enquanto frente a frente encostava compassadamente o meu corpo ao dele, pernas com pernas, braços com pescoço, nariz com nariz, língua com língua. Naquela orquestração virava-me então e baixava meus braços até as mãos se espalmarem no chão erguendo à linha do seu olhar o traseiro ondulante que em harmonia ele puxava para si como um violoncelo encaixando-o no seu arco para um virtuoso acústico .

Com o passar do tempo e talvez fortemente influenciada pela nossa notória diferença de tamanhos aquela alma decidiu-se por um novo arranjo para os ritmos sedutores e relaxantes iniciado com um anda cá, minha linda, vem aqui ao papá…que Senhor Doutor, me soou progressivamente de som minimal a uma completa desafinação que me reduzia o prazer musical a tamanho menor que uma semibreve e dei por terminado o concerto repetitivo.


(Amanhã é Dia Mundial da Música
e por isso recomendo esta audição)

0 comentários: