Deus grego

O Senhor Doutor está a ver aquelas alturas em que nos sentimos totalmente burrinhas, em que simplesmente aloiramos à frente de um gajo?... Pois era tal e qual assim que eu ficava diante daquele perfil de estátua grega, elegante nas suas linhas clássicas, rigoroso no contorno dos músculos que nem um graminha a mais ali havia e assim o erigia em deus grego, certamente Dionísio, não tanto pelo lado do vinho mas mais pela sua composição afrodísiaca.

Frente a frente, ficava sempre titubeante, hesitante em todos os pormenores físicos e acessórios, se o raisparta da saia não subia muito acima do joelho, se a depilação resistia e não andava por ali nenhum daqueles pelões enormes que despontam em plena perna sempre na altura menos apropriada, se o decote não era óbvio em demasia na exposição dos seios, se o cabelo estava solto mas nos contornos devidos, se a cara não deixava transparecer aquela adoração dengosa que salivava ainda mais quando diminuia a distância entre os meus dedos e os dele. Até se me entaramelavam as palavras e tinha de me concentrar afincadamente em tudo o que houvesse à mão como o cigarro, o isqueiro, um papel, uma caneta, um copo ou o diabo que me carregasse para da minha boca saírem frases plausíveis no contexto da conversa.

Efectivamente, Senhor Doutor, o que eu queria mesmo era, qual Salomé, apropriar-me da sua cabeça e seguindo o ritual do império romano que de cada vez que mudava o governador se deixava o corpo e se trocava a cabeça na estátua, ir colocando o seu crânio nos corpos que me atravessem o estreito.

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