Absolutamente



Confesso que nunca tinha visto nada assim. O Senhor Doutor acredita que ele para além de carregar os sacos das compras com um sorriso nos lábios entrava comigo naqueles labirintos de prateleiras, expositores, arcas frigoríficas, ramagens e roupas em busca dos tesouros descritos no papelinho das faltas domésticas?... E como se isso não bastasse, encaixava os milhentos saquinhos no porta-bagagens da viatura como se estivesse a jogar Tétris.

Nos dias convencionados para as tarefas chatas de manutenção do lar docemente me questionava se o queria ajudar enquanto me passava o aspirador e se agarrava ao balde e às esfregonas para além do milagre diário de colocar a roupa suja no recipiente apropriado e não fazer dela cultivo pelo soalho fora.

E não me faltava com nada naquela área em que acreditamos que o paraíso é mesmo na terra e se constrói na colagem das peles como recortes de criança. Mesmo naqueles dias do mês em que me cresciam borbulhas como cogumelos ou os rins davam sinal da sua existência montados nos ilíacos ou uns martelinhos decidiam instalar andaime de obras na testa e atiçar-me um maçarico à frente dos olhinhos, ele que lhes conhecia a cronologia tão exactamente como eu, encostava-se a mim aconchegando-me o pescoço e o colo com mãos bailarinas, sussurando elogios como algodões embebidos em tónico facial. Descia as mãos à minha cintura e avançava com as suas ancas contra as minhas, sugerindo que possuía um remédio que me podia aplicar directamente na causa do mau estar e se lhe desse três segundos na picadora até o servia polvilhado de Trifene 200.

0 comentários: