Postal Adílico


Adília Lopes nascida alfacinha no ano de 1960 é senhora dum percurso de publicação longe dos circuitos mais comerciais, misturando o universo doméstico com jogos fonéticos, com sexo e religião, com kitsch e humor num cocktail de escrita que surpreende.

ABSOLVER
(com algumas coisas do Herberto Helder)
«Mas Maria guardava todas estas coisas, conferindo-as em seu coração»
Lc 2,19


Chama-se sexo
a uma parte do corpo
como se todo o corpo
as mãos os pés a cabeça
não fossem também sexo
o pénis a vagina
os testículos as maminhas
são frágeis
vulneráveis
estão expostos
à crueldade
são flores
ou musgos
posso estar nua e ser casta
não tenho nada de freira viciosa
e devassa
com toda a minha atenção
toco-te
dou-te os meus sentidos
os meus sentimentos
sinto muito
ter estado muito contigo
é uma coisa boa
que melhora o mundo
que o embeleza
agradeço ter-te encontrado
e ter feito o que fiz contigo
com a cabeça nas mãos
e os olhos cheios de lágrimas
sonho contigo comigo

(Caras Baratas - Antologia, Lisboa: Relógio D'Água, 2004)

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