Segunda feira


Acordei tarde para não variar com o corpo a estender o sono até deglutir toda a nicotina nocturna. Saltei para o duche de poucos minutos que nestes dias os segundos andam sempre mais depressa. À minha espera lá tinha a blusa nova de decote em vê com fecho éclair de lado. Enfiei-a e tudo corria bem até puxar o fecho. O danado não subia acima da cintura. Fiz força para baixo, fiz força para cima mas o desgraçado dali não se mexia a fazer pirraça aos ponteiros do relógio. Num repente puxei a blusa para fora e vá de experimentar o fecho que corria na perfeição nos dois sentidos. Voltei a vesti-la e pimba, o gajo parava no mesmo sítio como se fosse ali paragem de autocarro ou lugar cativo de estacionamento. Ao contrário do poema de António Gedeão o que eu não queria ter era um fecho éclair. Expirei fundo, bufei como um gato ameaçado e peguei na patilha com toda a genica a medir forças com aquele energúmeno que me estava a atazanar a manhã. Certamente com pena de mim ele lá condescendeu subir um bocadinho mas por mais que eu teimasse, não ia até ao fim.

Conferi as horas e percebi que não me apetecia ir escolher outra roupa nem sequer procurar combinar as cores das calças com outra blusa e outros sapatos para já não falar da suprema chatice de despejar o conteúdo da mala para arrumar noutra. Pespeguei a mala no ombro do lado do fecho e ala moça que se faz tarde para o local de trabalho onde a primeira colega caridosa que encontrei com as duas mãos em riste o puxou todo para cima e me acabou com o problema.

E é nestas alturas Senhor Doutor que me parece que até pode fazer falta um homem em casa.

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