Cabidela



Ando a ler «O fim da aventura» do Graham Greene, um romance em tempo de guerra e tomei consciência de que ao contrário do meu tio-avô que foi gaseado na Primeira, do primo direito da minha mãe que ganhou uma prótese de perna em África, nunca eu senti o cheiro do sangue queimado e sempre vi os conflitos armados expostos com a arte da «Guernica» do Picasso ou o rosto ainda imberbe do José Rodrigues dos Santos a anunciar a Guerra do Golfo em ecrãs verdinhos como os dos primeiros computadores.

É certo, Senhor Doutor, que vi alguns dos fogos deste verão, tal como nos anos anteriores, com as árvores a crepitar e as faulhas a cairem dos céus como se fossem naturais como uma chuvada de granizo. Mas só posso imaginar a barriga de alguém que tantas vezes percorri em beijos frementes e língua escorregadia a esvair-se em borbotos de sangue que me pintalgam a cara perante a minha impotência angustiada. Só posso visualizar as pernas pelas quais tantas vezes escorreguei, excitando-me com a fricção dos seus pêlos na minha púbis, agora estralhaçadas por uma qualquer mina perdida. Apenas concebo com a nitidez de um filme ver aquele homem esguio, sem uma gordurinha a mais, com os músculos da nádegas espetados, ainda mais magro, com as vértebras do tronco proeminentes e a já não bastar o meu corpo em alegres contorções para lhe saciar a fome.

Bem sei, Senhor Doutor, que as matronas romanas se extasiavam com os corpos ensaguentados dos gladiadores e quiçá, conseguiam até orgasmos perante os pedaços de carne fresca pendentes da boca dos leões mas cada vez me convenço mais que nem uma autópsia de arroz de cabidela consigo deglutir.



(Porque amanhã é Dia Internacional para a prevenção da exploração do ambiente em guerra e conflito armado)

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