Útero


Adorava pendurar-me no pescoço dele a debicar-lhe os lóbulos das orelhas. Descer um fio de língua pelo seu pescoço enquanto lhe comprimia as nádegas com os meus tornozelos. Despentear-lhe os cabelinhos crespos com ambas as mãos para lhe sorver a face num beijo que dava sentido ao céu da boca. Forçá-lo a deitar o tronco para semear saliva na linha de pêlos que do meio do tronco descia ao umbigo antes de o submergir em gluglus sucessivos. Sentir as suas mãos rodarem-me a direcção do corpo para me baixarem as ancas à linha do seu olhar e os seus lábios me debicarem como se faz aos cachos de uvas. Prolongar aquela mastigação mútua até ao minuto anterior àquele em que começam a doer os maxilares e adormecer.

E ao imaginar continuamente esta cena percebi, Senhor Doutor, que o nosso desejo é sempre perfeito porque construído dentro de nós pelo que o nosso desejo não é mais que um útero. E foi aí que desatei a comer chocolate Canderel. Toda a enormidade da caixa que tinha em casa, por serem os que têm menos calorias, destruindo em minutos o objectivo de regradamente comer um de cada vez, mas garanto-lhe que foi magnífico o seu efeito laxante, nas mágoas e em mim.

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