Passagem de Ano

Antonio Cornella, Tête à tête (mármore de Carra)


Ficaram parados frente a frente com sorrisos envergonhados na boca, desavergonhados nos olhos e alucinados no cérebro.
Queriam agarrar-se, abraçar-se, beijar-se, fundir-se num só, mas ficaram só frente a frente, vítimas dos embaraços sociais e da educação judaico-cristã que os moldou e que se acusa nos piores, que deviam ser os melhores, momentos.
Ela tinha ido por ele e ele tinha ido apenas por ela. Sabiam que se iam encontrar e queriam o céu ou, definitivamente, o inferno e não mais o limbo degradante em que viviam, em que sobreviviam, em que se consumiram na espera do outro nos últimos meses.
O desejo que os impelira para ali, era o mesmo que agora os imobilizava: era o desejo do outro, que tinha raízes no desejo de serem eles próprios, o que, sabiam-no dolorosamente, só acontecia estando juntos.
Ele precisava dela para gostar de si próprio.
Ela precisa dele para ser ela própria e ser feliz.
Não havia palavras de circunstância, nem gestos conciliadores para iniciar a conversa, era tudo ou nada e isso mantinha-os em pânico, expectantes, paralisados. Ambos precisavam de avançar como de respirar, mas sabiam que um gesto em falso, um movimento equívoco, uma reacção ambígua seria o suficiente para colocar o outro na defensiva, para inquinar o momento, para fazer assomar a amizade pardacenta que os consumia e que nenhum queria manter.
Parados frente a frente, olhavam-se nos olhos, sentiam o tempo passar e mais do que os seus sentimentos procuravam adivinhar o sentimento do outro e não avançavam.
Tinham de se entregar, sabiam-no. Todavia, ali, agora, frente a frente, o instinto de sobrevivência obrigava-os à inércia, a receosos cuidados que lhes amoleciam os gestos e a vontade. Queriam dar-se com rede de protecção, mas há muito que o número que iam executar deixara de poder ter essa medida de segurança, agora, eles sabiam e tinham medo, teriam de se lançar, agarrar-se ou estatelar-se ao comprido no chão, com fracturas e equimoses de que nunca mais se livrariam.
Estavam frente a frente há dois segundos, se tanto, e ele avançou, de sorriso aberto mas de cara ao lado.
Ia beijá-la na face.
Ela deixou de sentir o chão debaixo dos pés e viu-se a cair desamparada, sem peso, sem corpo, sem esperança.
Ela deu um pequeno passo na direcção dele e deu a face para as bochechas, só as bochechas, se encontrarem.
Ele que se tinha agarrado firmemente ao trapézio, ergueu os olhos e viu que as cordas que o sustinham acabavam presas a sítio nenhum e por cima de si não havia tecto, nem céu, nem luz, era o mais profundo e triste breu e abandonou-se a cair sem olhar para baixo.
As faces frias tocaram-se, os corpos não.
– Amo-te – disse ela.
– Adoro-te – disse ele.

Garfanho


( Porque o último dia do ano é tão bom para começar como qualquer outro, tenho o imenso prazer de vos apresentar o primeiro post do Garfanho chez moi ).

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