Coluna Jónica

Era Julho e o sol torrava-nos a moleirinha. Conheci-o no Ruínas Circulares e não junto aos correios da Cova da Piedade ou aos pulos sobre a portista Ponte de S. João e logo ali me deslumbrei pela sua Declaração de Rendimentos. Daniel Jonas, agapanto lilás, tem a audácia de ter 31 anos e escreve bem que até os olhos nos doiem absurdamente de tanta sensibilidade escrita, mil vezes culpado do pecado da criatividade lexical.


Pecado capital

A Vitória de Samotrácia
é mais ou menos a minha história
sentimental: tinham todas um corpo
e asas até
mas pouca cabeça.


Não o Previra. Fizeram-se à Pressa Sinais. (excerto)
(...)
E hoje está-se bem. As mulheres vêm e vão.
O ouriço põe gel nos espinhos sábado à noite
mas não baixa defesa diante dos avanços de uma mulher,
não desguarnece as barbacãs sempre que uma mulher
faz o convite. Estranho enigma este
de sair mas não propriamente
para encontrar alguém.
Também Sansão
não tinha jeito para enigmas,
impaciente revelava-os
e ao terceiro engodo já usara como tópico o cabelo.
Sansão queria era ir ao barbeiro,
qualquer psicanalista hoje lhe teria explicado isto.
Seria proverbial:
quem amor-próprio não tem
de amor alheio nem mal nem bem.
(...)



Já não é possível enrolar mais esta erva
nos teus dedos;
os teus dedos
já não tocam o nervo da noite
e o fumo violento
que inalas a desinfestar a alma
faz-te vagarosa beleza.

O anzol circular que o teu lábio mordeu,
paixão de peixes,
quer morder o meu
aço. A erva quer ser lua
na crescente inclinação rente.
Eu não quero ser nada.

E está frio, mas não menciono nenhum mês
como o fazem os poetas.
Duas belas balas medem
o calibre dos meus olhos. Cindo nos dedos
outros dedos contorcidos:
o gás é nosso amigo.

Não há grilos na hesitação
do silêncio. Não há mortais desembainhando
navalhas. Hoje longa hespéria
te espero
e assim como um torpor te entro
como fumo
nos pulmões.


Os Fantasmas Inquilinos, Cotovia, 2005

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