Congelado


Havíamos sido a primeira paixão de cada um, aos nove anos. Beijos fugidios, curtinhos, de lábios amachucados uns contra os outros e dedos entrelaçados com muita forcinha que nem nunca as mãos serviram para tocar outra parte dita mais íntima, crentes que o amor se transmitia pelos olhos e pela boca.

Com as voltas que a vida dá acabámos por nos encontrar adultos feitos, na festa de final de ano e parecia lógico terminar o que nunca tínhamos sequer tentado, desmanchando o presépio que os nossos nomes próprios nos haviam dado de presente.

Agora ele era produtor de cinema e o seu apartamento estava atafulhado com uma artilharia de brinquedos tecnológicos que iam de uma antiga juke box ao funcional ipod e a sua cama baixinha estava adornada com uma coluna de cada lado.

Bêbado que nem um cacho, as suas mãos descaíam-me pela pele como óleo numa estrada e a sua cabeça aterrou em mim com um nariz mais penetrante que a língua encortiçada, quase me sufocando com o embate dos sacos de esperma nas minhas vias respiratórias. Com as mãos lá lhe alcei o material exposto a uma distância segura mas nem cuidadas massagens nem frenéticas contorsões de língua na glande davam alento àquele Bounty derretido.

Num esforço, maior do que permitia a alcoolização humana, alcançou um amigo daqueles que há uns anos se vendiam como massajadores faciais, ainda na embalagem original e ergueu-mo, balbuciando qualquer coisa sobre o local onde se guardavam pilhas naquela casa. E eu não consegui parar de rir porque, Senhor Doutor, a única coisa de que me lembrei foi do anúncio da nossa infância que estribilhava «peixe congelado, alegria no cozinhado».




(Gentilmente patrocinado por Lena d'Água)

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