De(composição)


Saí do funeral e vim a correr para aqui, Senhor Doutor. Ainda sinto o cheiro daquelas flores em decomposição nas narinas mas é sempre essa a parte que mais custa a decapar de nós. Depois das palavras do padre, o caixão fechado a passar ao forno é uma imagem inócua, como no final do repasto a conta que aceitamos numa bandeja enquanto acendemos um cigarro.

Ele tinha cinquenta e poucos anos e há mais de vinte que entremeava o seu negócio de restauração com festas nocturnas abastecidas com gente de ocasião. Afinal, o sexo é daquelas diversões como o futebol em que ninguém duvida da sua aptidão para dar palpites e praticar, quanto mais não seja, na praia. A sua esposa, como estipulado no contrato que ambos mantinham, não questionava e ficava em casa a tomar conta dos filhos ou fazia uns encontros da Tupperware que os produtos da Yves Rocher vendia mesmo aos muitos funcionários do Hospital onde trabalhava, na secretaria. Ele como macho que se prezava, nunca enfiava uma camisa sem colarinhos nem no lar doméstico nem fora dele que isso era coisa de maricas e a santa heterossexualidade o protegia. Negou as evidências do médico perante as análises quando se tinha ido queixar dos pulmões. E contrafeito, lá mandou a esposa ao médico não fosse o diabo tecê-las.

Naquele enterro, os dois filhos, riscados como dois trémulos traços negros ainda nem haviam delineado o que fazer ao negócio de família, na ignorância do exacto calendário que os faria repetir aquela cerimónia para sua mãe.

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