À luz da Constituição


Senhor Doutor, vim aqui a correr contar-lhe o sonho estranho que tive esta noite para ver se o interpreta.

Começava comigo em Atenas, naqueles vestidos vaporosos presos com alfinetes nos ombros e estava eu a declarar a minha paixão em frases feitas como amo-te muito e és o sol da minha vida e tal, a um fulano do tamanho das estátuas apolíneas mas com mais barriga e nádegas mais flácidas e vai ele, replica-me que eu estava ali era para reprodutora que o amor só pode ser possível entre iguais, mandamento que ele cumpria religiosamente com o gajo eleito do seu coração. Turvou-se-me a vistinha e antes que conseguisse afinfar-lhe a merecida joelhada entre as pernas, esfumei-me magicamente dali.

Voltei a ver-me, com o cabelo cortado à tigela, debaixo de um gorro afunilado e as mamas espalmadas por faixas sob um jaquetão aveludado, na Lisboa medieval que não merecia engano dados os constantes gritos de água vai pelas janelas fora e a consequente queda de água de despejos. Percebi que estava vestida de homem para à socapa estudar na Universidade, como mais tarde, no século XVI o fez Públia Hortênsia de Castro, tanto mais que me boiavam na cabeça uns versos de ai flores de verde pino que me agoniavam e num onomatopaico puf puf, desapareci.

Reapareci no meio de um barco atulhado de gente quase nua e barricas de laranjas, com um rabo proeminente e uns seios descaídos pela falta de sutiã, tudo num tom de pele acastanhado e quando o homem da gávea gritou terra, terra, terra de Vera Cruz, procurei cofiar o meu crânio por entre a carapinha como para me compensar do medo de estar num navio negreiro e tanto esgravatei que me desfiz em coágulos de sangue na madeira da nau.

Finalmente, dei por mim no século XXI e respirei de alívio já que envergava a minha roupa habitual e estava no Hot Club, ao som de um trompete e de um saxofone que aquecia os beijos molhados dos inúmeros casais espalhados pelas mesas, e no palco, sobre a melodia de When the Saints Go Marching In, Jorge Sampaio repetia o refrão à luz da constituição, à luz da constituição.


(Por isto, isto e ainda mais isto)


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