Efemeridades


Ele era um Joaquín Cortés dos piropos, Senhor Doutor. Recorrentemente, elogiava-me as formas espraiando uma imensidão de és mesmo boa e bendito rabinho, tal e qual um puto frente à montra de uma loja de guloseimas e assim me adoçava a vida. Como se não bastasse, gabava-me a técnica do fellatio enumerando todos os detalhes que apreciava, bem como a ginástica nas cambalhotas e a resistência na arte de bem cavalgar toda a sela, como se o marulhar deste sons na língua o masturbasse. Eu limitava-me a pegar nestes diplomas assim dados e a emoldurá-los no ego.

A potassa, Senhor Doutor, era o gajo borrifar-se para as minhas sentidas dissertações sobre a monotonia dos dias e para a drástica importância que para mim tinha o uso de uma palavra em vez de outra, coisas ostensivamente preteridas pelas minhas formas efémeras, esculpidas desde a adolescência a pulso de muitas dietas alucinantes que expulsaram a gordinha de mim.

Seria absurdo pedir-lhe que me amasse como a si mesmo e contudo eu tinha de bater o pé. É que, Senhor Doutor, ele há gajos em quem se dá umas revitalizantes e boas quecas para espantar a solidão dos dias. Ele há gajos que nos maravilham tanto pelas conexões dos neurónios que se chegamos a vias de facto com eles é como se mais nada houvesse para descobrir debaixo do céu. E há ainda outros que fazem questão de se alojar no sistema, requerendo que se aguente a partilha do tempo e do espaço e aí, não basta o vulgar da líbido porque esse alguém precisa de aconchegar a roupa da cama, chegar o copo de leite com mel, responder a perguntas absurdas e rir-se com teorias precipitadas, como os meus pais fizeram afastando a efemeridade dos dias.




( Gentis patrocínios de imagem por Armonie d'Art Festival e de som - "Perdidos" - por Pasión Gitana )

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