Postal Apaixonado

Faz hoje 67 anos que nasceu o cineasta João César Monteiro. Aquele que na estreia do seu "Branca de Neve" afirmou "o público que se foda" e já nos diálogos do seu primeiro filme havia considerado que "Este país é um poço onde se cai, um cu de onde não se sai".

Como narra em "A Minha Certidão" (Revista &ETC,1973), "Por volta dos 16 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade e nunca mais fui visto na companhia de políticos".

João César Monteiro criou uma cinematografia onde a igreja, os políticos, os executivos de cinema e o sexo são obsessões, servidas pelo próprio realizador vestido de João de Deus ou de João Vuvu, um pedófilo de exóticos rituais sexuais.

(Contracampo)


Sobre a sua actividade, confessou ao jornal Público, em 1995, que "O cinema não tem consolo. Porque é película, e a película nem sequer é tão saborosa como um gelado. É uma matéria físico-química, mais salgada do lado da emulsão porque tem ácidos - isto quando se põe a língua. Não sei se dá saúde. Mas não traz felicidade. E ainda por cima nesta idade já não excita muito o egozinho. O que é que eu gostava de ser? Gostava de não ser cineasta, não ser artista, ser gente simples, passando despercebidamente pelo grande magma social. Isto pressupõe uma certa inveja: não é a inveja de não ser um grande cineasta como o Murnau, é a inveja de não ser afável e simpático como o marido da minha porteira. Não consigo ser. Porque mexo em coisas que têm a ver com a criação, com a arte".

E acrescentou, noutra passagem de "A Minha Certidão" que "Assim sendo, resta-me reconhecer a solidão moral de uma prática cinematográfica cavada na dupla recusa de ser uma espécie de carro de aluguer da classe exploradora e, o que é mais grave, de trocar essa profunda exigência por toda e qualquer forma de demagogia neo-fadista que transporte e venda a miserável ilusão de servir, por abusiva procuração, de interesses que não são os seus".

Ai, João César Monteiro é esta lucidez que em ti me apaixona e o resto, olha, que se foda!

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