Postal de sensibilidade e bom senso


No ano de 1942, nasceu no bairro de Benfica, em Lisboa, António Lobo Antunes . A partir de 1985 decidiu dedicar-se exclusivamente à escrita e apesar de considerar que "Os leitores são umas putas, amam-nos e depois deixam-nos", continuou a traçar em prosa retratos do Portugal do século XX e numa faceta menos conhecida, que hoje aqui trazemos, também em poesia.


Bolero Do Coronel Sensível Que Fez Amor Em Monsanto

Eu que me comovo
por tudo e por nada
deixei-te parada
na berma da estrada
usei o teu corpo
paguei o teu preço
esqueci o teu nome
limpei-me com o lenço
olhei-te a cintura
de pé no alcatrão
levantei-te as saias
deitei-te no banco
num bosque de faias
de mala na mão
nem sequer falaste
nem sequer beijaste
nem sequer gemeste
quinhentos escudos
foi o que disseste
tinhas quinze anos
dezasseis, dezassete
cheiravas a mato
à sopa dos pobres
a infância sem quarto
a suor a chiclete
saíste do carro
alisando a blusa
espiei da janela
rosto de aguarela
coxa em semifusa
soltei o travão
voltei para casa
de chaves na mão
sobrancelha em asa
disse: fiz serão
ao filho e à mulher
repeti a fruta
acabei a ceia
larguei o talher
estendi-me na cama
de ouvido à escuta
e perna cruzada
que de olhos em chama
só tinha na ideia
teu corpo parado
na berma da estrada
eu que me comovo
por tudo e por nada.


António Lobo Antunes, Letrinhas de Cantigas, 2002





(imagem de autor desconhecido recebida por email e música de fundo gentilmente patrocinada por Toy)

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