Puzzle


Apenas tenho saudades das pessoas que amo, Senhor Doutor. Nunca as tive da minha cama ou da minha almofada e sempre dormi regalada em qualquer colchão.

Tenho saudades da sua tez branca de arruivado transmontano, faiscante nos olhos marinhos e dos nossos encaixes, chegando a rever os momentos de puzzle ideal em que lhe manipulava todas as peças do baixo ventre, lhe manuseava todas as arestas arredondadas, sem lhe desfazer o corpinho, como convém.

Recordo quando pela primeira vez nos encontrámos frente a frente com uma cama digna desse nome, para dormirmos uma noite inteira juntos e ele se apresentou compostinho num clássico pijama masculino de seda e a forma selvática como o empurrei para o colchão, gritei por ajuda para tirar cada botão da sua casinha e em gargalhas, reclamei que o meu primitivismo preferia a seda da sua pele e a feitura de casulos misturando a minha saliva nos seus pêlos púbicos.

E juntando estas peças no dia de hoje em que ele perfaz mais um ano de existência, tive saudades de o parabenizar encaixando a minha língua até ao céu da sua boca, dançando o ventre para ambos os lados contra a ganga que tapa o fecho éclair e de mão cheia, pressentir-lhe o volume com um sorriso cúmplice de «vamos montar o puzzle?».

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