Quanta lata


Fotografava insistentemente as minhas pernas em saias e o meu rabo em calças. Com o telemóvel que havia comprado naquela campanha de Natal encabeçada pelo Mourinho que possuir um daqueles é como a gripe das aves: pega-se logo o sucesso. Ai, Senhor Doutor, o que ele gabava aquele objecto enquanto eu respondia invariavalmente com "catita a valer!", numa reposição do Dâmaso Salsede.

Frases de boas festas, bom ano e outras mais pessoais, arrancava-as das listagens para telemóvel. Inclusivé, as frases amorosas que me dedicava e os pensamentos de análise sobre as mulheres que debitava boca fora. Como uma sms para o número tal tinha tudo o que pretendia. Subscrevia também, no telemóvel, duas vezes por semana, as fotos eróticas, as anedotas mais engraçadas e os resultados da jornada futebolística, para glorioso se manter actualizado nas conversas de escritório e mostrar gajas boas aos colegas.

Agora, quando tocava a tirar a roupa e depositar devagarinho, o telemóvel, na mesinha de cabeceira, era como se despisse a raça de português, esse tipo europeu que mais telemóveis tem, e entregava-se à ginástica como disciplina obrigatória, com raros e breves grunhidos roucos, fazendo de mim um código de barras não lido. O contacto da sua pele contra a minha era metalizado como uma broca a furar chapa, eficiente apenas na rotina do ímpeto perfurador. Às vezes, eu desviava os olhos do tecto ou dos números faiscantes do despertador e procurava o seu rosto mas, invariavelmente, deparava com pálpebras semicerradas em esgares de dor num ecrã a apagar-se por falta de bateria.

Até que um dia, Senhor Doutor, depois de mais uma queca de lata e com a frustração à flor da pele lhe disse que deitasse a cabeça fora e colocasse lá o telemóvel.


(imagem a partir de originais gentilmente cedidos pela Motorola e recolhidos aqui )

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