Torrada

Foto © Francisco Varela do Vale

Fosse de manhã ou à noite, encostava-se a mim com os gestos inequívocos de me lavar os ouvidos com a língua e de me cravejar os dedos nos seios como se estes apresentassem risco de derrocada eminente. Dava assim sinal que o seu zézinho se estava a espreguiçar, facto que eu confirmava, garroteando-o. Rolávamos um pelo outro com as línguas feitas esfregão, até os tornozelos tocarem as orelhas do outro e despenhavamos-nos no fragor de nos absorvermos até sentirmos a emergência da penetração, profundamente cara a cara ou com os testículos subidos, batendo como ondas contra as rochas.

Cumprida a função, ele virava-se e dormia ou embicava para a casa de banho e eu placidamente, ficava estiraçada nos lençóis, com a satisfação do dever cumprido num ginásio e mais umas calorias gastas, para rever em slow motion o sorriso gaiato, os olhos vivos daquele contador de histórias da pesca e de fábulas surpreendentes de humor, rabiscadas do quotidiano que me faziam eriçar todos os pelinhos, levar os dedos aos lábios em súbitas chuchadelas enquanto um torpor me descia em catarata pela espinal medula inundando-me os lábios do biombo interior das coxas, sem ele tirar uma única peça de roupa que fosse.

É por isto, Senhor Doutor que doravante só aceito um homem-torrada, com manteiga dos dois lados.

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