A varrer


Oh Senhor Doutor, isto tem de ser tudo a varrer, tudo a varrer. Estamos a ficar triviais, conjugais, mais preocupados em ter a casa toda arrumadinha e em equilibrar as prestações da tralha toda que comprámos para a encher, do que em surpreendermo-nos um ao outro.

Deve estar farto de ouvir isto mas, sexo sempre com o mesmo gajo é uma monotonia. A páginas tantas já conhecemos todos os poros, o mapa das borbulhas espremidas e por espremer e até conseguimos dar conta de quantos pintelhos caíram no banho desse dia. Desculpe-me lá isto dos pintelhos, Senhor Doutor, mas dizer pêlos púbicos pela boca fora soa mesmo mal .

O que eu lhe estava a dizer é que quando durante muito tempo alinhavamos com o mesmo gajo, é só aplicar cuidadosamente a linha e a agulha experimentadas e toda a cópula sai certinha como uma tabuada. Por isto, eu diria que estamos juntos como uma junta de bois. Já não adianta mudar de posições que também não há assim tantas que não tenhamos já feito a maioria e honestamente, quando as pessoas se conhecem, o pão nosso de cada dia é usar as preferidas.

E depois, como toda a gente, ambos temos visão periférica e galamos quem passa à volta. Só não assobiamos porque isso é muito trolha. Para já não falar de quando embevecidos ouvimos alguém e dispara o alarme de que tens gajo em casa! tens gajo em casa!, como naquela cena do Woody Allen em que os espermatozóides são avisados que está na hora de ejacular.

Ora, Senhor Doutor, se até entendo a segurança e estabilidade da sociedade comercial, não seria aceitável aditar ao contrato inicial uma clásula que permita a ambos fazer outsourcing?

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