Virgindada



Confesso Senhor Doutor, que enquanto o fui tinha vergonha de o ser, como se me faltasse alguma coisa para participar no mundo dos homens, como o bilhete de identidade ou o cartão de eleitor. E azarito o meu que aquela membrana demorou anos a romper, mantendo-me tecnicamente virgem.

Até a palavra desfloração me arrepiava os pêlos, no pior sentido, claro, que nunca consegui associar o acto à apanha de flores com borboletas esvoaçantes e os passarinhos a chilrear. Se fosse póquer de dados, com o copo a engoli-los, a chocalhá-los no gozo dançante de antecipar o momento de triunfantemente os jogar fora, ainda perceberia.

Ora assim, já deve imaginar o estado de estupefecção que me causou o telefonema da minha amiga dos Estados Unidos cujo recente marido, seguindo a moda daquela santa terrinha, lhe quer pagar uma reconstituição do hímen, já que naturalmente não foi ele que rompeu o original e, pior, ela aceitou.

Eu bem argumentei que não entendia esses instintos pedófilos de dominação ou de corta-fitas inaugurais para inglês ver e que a maior satisfação que se pode dar a um homem é mostrar-lhe que preferimos gastar alguns minutos com ele e não com as toneladas de outros gajos comestíveis que por aí há.

Mas, caramba, se há quem não perceba a diferença entre beber um tinto refrescado no frigorífico e um tinto envelhecido, servido à temperatura natural que se tem de deixar respirar antes de degustar o aroma e o travo, também só posso reconhecer a minha ineficiência para aplicar aos outros próteses nos sentidos.

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