Coisa ruim


Lá ia eu Avenida abaixo, a bater rapidamente o empedrado, com pressa de chegar aos Restauradores, quando um jovem certamente iludido pela traseira das calças, a despontar do fundo do blusão e alcandorada nos saltos das botas, se acercou de mim e perguntou se podia conhecer-me. Coisa estranha o desejo de conhecimento e oh senhores, tudo menos gajos a chatear-me a moleirinha naquele dia e disparei-lhe um rotundo não.

Mas o moço não era de desistir às primeiras e estugou o passo até ficar de novo a meu lado para me asseverar que sabia cozinhar, arrumar o quarto e não fumava. A camisola com capucho da Quebra-Mar folgada no seu tronco esguio, conjugada com as calças Gap num rabinho estável e altaneiro, não me faziam duvidar que vivia com os paizinhos que benza-os Deus, sempre lhe tinham ensinado algumas regras de sobrevivência como arrumar o espaço que se habita e tornar agradável ao paladar e à vistinha os componentes necessários para pôr a funcionar o corpinho. Aliás, as qualidades apresentadas como cartão de visita de engate, pouco mais que duas décadas lhe davam.

O busílis, Senhor Doutor, é que não consigo aderir à moda fundamentalista, tão propalada na publicidade dos cinemas de que mais vale arrotar desalmadamente, coçar freneticamente as partes à frente dos amigos, soltar bufas de pantufas ou com o estrondo de foguetes em qualquer local e porque não, meter a unhaca do mindinho na orelha para sacar o cerume amarelão e pegajoso, do que fumar. Caraças, Senhor Doutor que eu farto-me de contribuir para o Estado em cada macito que compro e por isso, sorri para o rapaz e despachei-o com coisa ruim não fumares que eu gosto mesmo é de um cigarro a meias depois de uma refeição nua.



(Manu Chao, Me Gustas Tu)

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