Desta vez é a sério: Parabéns Hipatia!

Desta vez, confirmadíssima a correcção da data, hoje aqui te desejo, Muitos Parabéns, Hipatia!

Como mulher dedicada a leituras, com olhos claros de horizontes profundos, dou-te um poema sobre esse prazer, findo o qual tens um bolinho, para apagar as velas com o David Strathairn.

O prazer de ler

Desse horizonte que tens nos olhos
leio o longe e, se algum perto existe,
ele afasta-se

mal os dedos subam à face para o esmerar.

O prazer de ler o teu corpo não é o mesmo prazer
de ler o Mundo.

Como se eu te dissesse, vagarosa e silenciosamente
que não se devem ler outras coisas,
quaisquer outras coisas,
antes de te ler a ti,

mesmo só no olhar.

No caminho que, do horizonte além,
parte para dentro do horizonte que tens nos olhos,

tão dentro dos olhos,

que palavras podem dizer esta visão?

Começar a ler-te, assim, por intenção de um tempo
logo pela manhã,

é como se estivesse a ouvir a penumbra da demora
e nada se ouve.

Como se fora o movimento do livro
que Leonor d’Aquitânia lê, deitada em eterna pedra,
sem proximidade nem duração.

Uma lenta humidade instala-se nas folhas caídas
e parece escutar-se algum musgo,
vindo das pedras toscas

do muro que separa o jardim.

As asas de uma ave sacodem um frio ligeiro
e a ave parte
não se sabe de que recanto e para onde.

Como se nada tivesse fim.

Leio outra página na tua boca já que é ela
que dá voz aos olhos e de repente sinto que habitas
na respiração da voz que lê este pergaminho.

Que angústia pensada decidirá entre duas leituras?

Sigo pelos teus olhos, devagar, amachucando
algumas rugas, aqui e além,
do caminho.

E viro a página, os olhos, os dedos

e pergunto-me

se é só a tua leitura que faço
ou também a minha

pelo sentir dos olhos meus
que partem desta forma, letra a letra,

para dentro de ti

e do Mundo todo, afinal.

Desse horizonte que tens nos olhos
a história de mim, nesta manhã de mofo,

reparte-se na distância do meu sentir que lê
ao teu corpo encoberto nas margens
do canavial.

O musgo, apercebido no seu frio,
goteja de forma mais quente e eu sei,

por reflexão,

que também tu lês algum caminho

sem saberes para onde,
tanta é a humidade.

Por momentos, penso, talvez te possa ler em voz alta.

Mas não.

É melhor não quebrar as palavras,
o livro, a respiração ofegante, o Mundo

e abraçar a leitura na sua morosidade.

Talvez, quem sabe? tu tenhas adivinhado que te leio
e me leias também, com o mesmo matinal sabor.

Se tal fosse verdade, diz, se tal fosse verdade,

haveria leitura ou apenas os olhos
num só corpo interior?

(Rogério Carrola,Vila Nova de Santo André, Fevereiro de 2006
publicado em incomunidade )


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