Epidural


Conheci-o num jantar de amigos, todo aprumadinho como um manequim da Rua dos Fanqueiros. Ele falava pelos cotovelos e tinha o radar do olhar ligado em todas as direcções para cartografar à primeira qualquer rabo de saia. Pela sua colocação estratégia na mesa, à minha frente, deu-me a entender que das presentes era eu a carne fresca que ele procurava pesticar naquela noite.

E no meio do circo do rodízio de carnes e de uma inenarrável história de signos e compatibilidades astrológicas que ele enfatizava, encosta os seus joelhos aos meus. Recuei as pernas apenas uns escassos milímetros como se nem tivesse notado o acidente. Ele serviu-me mais vinho e avançou de novo com os membros inferiores, envolvendo-me um tornozelo. Debrucei-me sobre ele a pretexto de pousar a mão no queixo e com um enorme sorriso perguntei-lhe porque tinha os olhos tão grandes. Não sei se da maminha que tinha no prato e em plena mastigação na boca, se do orgulho macho a inchar na língua por maior salivação, mas o facto é que se engasgou antes de me questionar se gostava deles, enquanto retirava os óculos para que eu os admirasse mais de perto.

Sejamos francos, Senhor Doutor, o gajo não era o meu muso, nem nada nele me prendera a atenção para o eleger como final de uma noite de pândega. De modo que retirei o meu rico tornozelo do laço de pernas, acendi um cigarro e numa baforada disse-lhe que até tinha uns olhos bonitos. O sujeito endireitou-se na cadeira, ajeitou o cabelo num repente e antes de repôr os óculos no lugar disparou um franzir de sobrolho.

E é por estas e por outras, já que a natureza não nos fez compatíveis com todos os pares de olhos que pululam ao cimo da terra, que me parece Senhor Doutor, que a medicina devia inventar uma epidural para a dor da rejeição ou em alternativa, um adesivo "Ne me quite pas" vitaminado que suprisse a carência afectiva.

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