História de Oh


Estranhei aquele pinchavelho à laia de fósforo assim espetado na orelha, a descer lentamente pelas escadas rolantes, como se uma câmara de filmar o acompanhasse. Pareceu-me mais fauna do Atrium do que daquele lado ou a julgar pelo ar apardalado do sujeito, acabadinho de sair da matinée do Brokeback Mountain. Olhou as mesas a toda a volta e encaminhou-se para o fulano mais plácido que ali estava, com qualquer coisa de celta ou bretão, encorpadito de largura como diria o Obélix, que afincadamente lia o Público, resguardando nele a cara. Não fossem as mãos vazias a ondular ao compasso do piercing e eu diria que o que estava de pé lhe ia ofertar uma bonina.

Debalde que o gajo somente encostou as coxas das calças à mesa e debruçando-se sobre o outro indagou as horas. O do jornal respondeu apenas ao que lhe fora perguntado. Dada a diferença de idades tinha idealizado logo ali uma cena digna do alto do Parque em plena luz eléctrica. Mas aqueles marmelos, nem um ósculo de despedida, nem um sorriso cúmplice. Ora paga ali uma pessoa a sua bica e embora confortavelmente sentada, não assiste a nada que faça rolar duas ou três linhas de imaginação. Neste interim, suponho que devido aos meus olhos coladitos ao pescocito do que estava já com o jornal em regaço, na minha direcção despoletou a sua vista interrogativa . E se bem que exalasse uma meiguice de antigamente, cruzei uma perna sobre a outra que é coisa que não me magoa nada e subi e desci o peito num suspiro, baixando as pálpebras para o ignorar. A crueldade era a maior amabilidade que lhe podia dar.

É que sabe, Senhor Doutor, às vezes faço a caridade de ser uma boneca de porcelana para não estilhaçar os pensamentos dos outros como num atentado terrorista.



(Cry me a river, Catte Adams e imagem gentilmente patrocinada por art. com)

0 comentários: