Prismar-te


Primeiro, como um genérico para a minha falta de imaginação, pensei dar-lhe uma daquelas almofadinhas da Funny, com beijinhos ou amo-te bordados. Tantos dias que tive para lho dizer na cara ou para lhe encher a boca deles e agia como se estivesse de piquete numa greve de rebuçados. Nem sei porque me assalta agora a urgência.

Ele estava ali, sempre à mão de semear para estender um sorriso ou discutir comigo uma dúvida, bacalhau seco para me salgar a vida e fazer subir a tensão. E eu sempre com pressa, a projectar nova sarna para me coçar, embrulhada com os trâmites do projecto que nem reparava que ele tinha a barba feita e a pele lisinha mesmo a pedir uma esfregadela de mãos nela. No lusco-fusco difuso lá o deixava esparramar-se em mim para uma rápida fluidez sem lhe deixar notar que enquanto as minhas coxas se cruzavam no seu torso, a minha cabeça ordenava as etapas de apresentação do power-point.

Cheguei ao hospital com a maior caixa de Mon Chéri que havia na loja, toda enlaçarotada que se ia fazer uma piroseira tinha de ser com todos os matadouros e Senhor Doutor, antes que ele a desembrulhasse, despejei de uma assentada que na cama já ele estava e eu queria ser o gesso que o embrulhava e o impedia de travar a coceira dos pêlos emergentes, no gozo de prolongar o momento daquela fusão, já que ele tinha sido até aí o doce cremoso dos meus dias e a bebedeira interior dos fluídos e carnes apaziguadas.



(Kings Of Convenience, Winning a battle losing the war)

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