Alinhavo


Aquela trintona que com dedos sapudinhos se afanava no ponto de cruz com a agulha ao ritmo do comboio, era um autêntico cliché. Maquilhada para se mostrar feminina mas não provocante. Uma sombra pouco mais escura que o tom de pele e um brilho nos lábios a condizer com a pérola na orelha e o relógio de bracelete metálica.

A seu lado, um negro de lábios exuberantes e uns olhos amendoados que até parecia que parte da sua genética provinha dos confins da China, com todo o seu porte atlético enfiado num fato de treino de marca cuja cor destacava a sensualidade da sua pele isenta de borbulhas, pontos negros ou escamas.

E eu comecei logo ali a alinhavar uma curta-metragem para a Benetton com uma investida do atleta sobre aquela honrada mulher casada que a bojuda aliança não deixava margem para dúvidas. Como um perfeito salto em comprimento ele pulava-lhe para o colo, espremendo o paninho bordado contra os seios da senhora enquanto as suas mãos longílineas lhe palmilhavam as costas e as nádegas, rompendo por dentro das roupas.

Perante o espanto mudo dela que compunha com ambas as mãozinhas os óculos no lugar devido, ele desapertava o cordel das calças para exibir a sua elevada masculinidade que todos imaginamos maior que a dos caucasianos e seguia para o lançamento do dardo, em ensaios contínuos, até que ela ultrapassasse o seu record pessoal de salto em altura.

É por isto Senhor Doutor que eu não lhe venho pedir uma lobotomiazinha do nosso Egas Moniz mas talvez me pudesse aconselhar uma coisinha menos drástica que travasse esta mania de tornar em personagens todos os indivíduos com quem me cruzo.



(Nina Hagen,
African Reggae e imagem g@m@d@ algures)

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