Andas bem miúda?


Ele parecia do tempo em que os funcionários públicos tinham de assinar um papel em como não eram comunistas. Fardava-se a rigor com o fato de gravata e colarinhos engomados. Abria sempre as portas às senhoras e deixava-as passar. Não é que eu desmereça esta regra de etiqueta já que para mim própria é um enorme prazer usá-la para fazer a esquadria toda dos rabos masculinos. Porém, como se costuma dizer, o que é demais enjoa. O homem, até no restaurante, puxava a cadeira para uma senhora se sentar, flectindo ligeiramente o tronco com o sorriso beatífico de quem estava a apreciar e a gravar os contornos para projecção de sonhos nocturna.

O pior para mim, Senhor Doutor, é que ele não contestava nada nem ninguém. Tudo era como era e nem valia a pena gastar saliva nisso, o que me aborrecia de morte e me fazia gotejar em silêncios longos e olhares distraídos em paralelo infinito. O fulano lá reparou nisso e vai de me interrogar com um andas bem miúda e aí, é que foi o caracinhas, que eu comecei logo a espingardar que escusava de me estar a diminuir o tamanho ou a idade para sustentar a sua autoridade que ele não era meu paizinho.

Caramba, Senhor Doutor que eu não me contive e verti mesmo um discurso como se fôra um enorme foda-se libertador e terminei, com uma alusão à sua pila, como uma medalha póstuma, já que ele próprio se esquecera da data em que tinha falecido.



( Dead Can Dance, Black Sun)

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