Diálogo


Sempre gostei de chamar os bois pelos nomes, Senhor Doutor e cansam-me aquelas despedidas com as palavras travestidas de punhos de renda, como se fosse possível ocultar o estertor de um desabamento sob o peso de uma discórdia telúrica.

Ele insistiu na infantilidade de querer ser meu amigo, repetindo a frase como medalha de honra na lapela e eu retorqui logo que seria nos dias em que mais nada tivesse para fazer que as minhas qualidades de tapa-buracos de agenda, eram excelentes. Num tom mais firme e mais alto, defendeu que eu sabia como o trabalho era importante para ele. Confirmei, ironizando a talho de foice que ninguém dissesse que existe mundo para além disso. Atirou-me com o habitual "achas mal, é?..." e sacou da carta de que acabava sempre por encontrar espaço para mim. Sorri e joguei o dado dos minutos de quecas para descontrair. Toda a sua voz se eriçou para urrar que eu também queria. Calmamente, especifiquei que não lhe estava a chamar violador pois se não as quisesse não mexeria as pernas um milímetro, o que não invalidava que quisesse mais do que isso. E seguiu um diálogo banal.
- Pronto!... Lá vens tu com a conversa de que não te faço sentir especial.
- Olha para mim!...
- Estou a olhar!...
- Parece-te que estou vestida com latex ou borracha?
- Não! Porque perguntas isso?...
- Porque tu precisas é de uma boneca insuflável!





(som gentilmente patrocinado por Tracy Chapman- Give Me One Reason- e imagem pela Universidade de Yale)

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