Extravagância


Era grande, gordo e desengonçado no andar como um elefante numa loja de cristais. O mote ideal para o cochicho de que aquele não dava uma para a caixa. Carregava sempre inúmeras folhas rabiscadas que frequentemente deixava cair para gáudio galhofeiro de todos os que viam aquele pesado e volumoso rabo soerguer-se em solavancos para apanhar e ordenar todos os papéis.

Nunca sentira aquela vontade de escarninho na humilhação dos outros mas o Senhor Doutor sabe que num grupo de adolescentes mais vale calar as diferenças do que ser expulsa da matilha.E assim foi até ao dia em que me prestei a ajudá-lo e percebi que as folhas escritas eram qualquer coisa parecida com uma peça de teatro, poemas avulsos e outras histórias. Foquei-o em plenos olhos e descobri que eram profundamente luzidios e sorridente perguntei se escrevia. As suas pupilas coruscaram e indagou-me se eu também o fazia. Começámos a trocar detalhes e abancámos nos degraus da escola durante horas que só os toques de entrada confirmavam.

Nos dias seguintes, repetimos o tu cá, tu lá, até que os lábios de tantas palavras trocadas se tocaram e sentimos o gosto orgânico das mentes que já conhecíamos. O passo seguinte foi descobrir naquele profissional da canhota uma barriga roliça despojada de roupas que me compelia a ser amazona pela primeira vez na vida, na sensação frenética dos meus seios latejarem na sua boca sedenta, enquanto me ecoava a música de jazz que minutos antes ele havia composto para mim.

A partir daí, antes de entrarmos nas aulas, um longo beijo era pretexto para os nossos corpos se comprimirem desalmadamente em público e alguém do grupo me comentou estranheza por andar com aquele que mais ninguém queria, o que foi música nos meus ouvidos com o cheiro forte dos lençóis que puíamos e respondi que gostava de extravagâncias, sobretudo das grandes quando tocavam contrabaixo.



(Nick Cave, He Come The Sun e imagem gentilmente cedida deste album )

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