Sempre amei as pedras



Foto © Patologista


Contaram-me e eu acreditei.

Alguns meses após o divórcio, ela sentiu-se encorajada a mudar de casa. Esforçada que foi a sua coluna, teve de recorrer a terapias complementares, numa tentativa de reparar os danos ocorridos. Conheceu um profissional de terapias, passando a sentir-se em franca recuperação com os seus tratamentos. Na primeira parte , fazia acupunctura e moxabustão seguindo-se uma deliciosa massagem de corpo inteiro, com óleo aquecido, chamada “californiana”.

Ao longo das sessões, de conhecidos, passaram a bons amigos.

Com o passar do tempo pós-divórcio, o seu corpo de mulher começava a fazer exigências. Aquelas massagens transportavam-na involuntariamente para outros momentos de fortes e boas emoções, guardadas na memória das células da sua pele e mente. Começou a notar que no regresso a casa, apesar de um certo bem-estar e relaxamento geral, se acentuava uma dor que ela bem conhecia, na zona do baixo-ventre.

Carência sexual nela, doía-lhe. Não era uma dor intensa, mas fazia-se notar bem e era persistente.

Conversou com o terapeuta e juntos tentaram encontrar uma solução. Terapeuta, não tem que ser bombeiro, mas ela, na nova situação de mulher sozinha, precisava reaprender a gerir a sua sexualidade. Na inexistência de namorado, uma das hipóteses consideradas foi o recurso a um vibrador. Como ela demonstrasse vergonha na ida a uma sex-shop, ele disponibilizou-se a acompanhá-la. Uma vez adquirido o objecto, este passou a ser utilizado na parte final das massagens. As tensões começaram a desaparecer e as “dores” a normalizar. Progressivamente ela foi descobrindo e dominando a técnica da auto-utilização com resultados satisfatórios. Esta autonomia tornou-a mais forte e independente da colaboração masculina. O seu “homem de silicone”, apesar de desagradavelmente frio, era perfeitamente funcional para uso individual ou partilhado.

Numa das sessões de terapia semanal, o ritual repetiu-se: discretamente pousou na estante o seu “amigo fiel” para ser utilizado no momento oportuno, despiu-se e deitou-se na marquesa, em decúbito ventral, como habitualmente fazia. A luz fraca e indirecta associada à música oriental de fundo, convidavam à descontracção. Enquanto o terapeuta resolvia assuntos pessoais ao telefone, ela percorreu com o olhar o mobiliário já sobejamente conhecido. A sua atenção prendeu-se na análise de um objecto novo, uma espécie de tabuleiro de metal, onde jaziam pedras escuras semi-cobertas de água. Ao som dos passos abafados do terapeuta, ela semicerrou os olhos e iniciou a “viagem”. Ele ensinara-lhe que uma massagem era como uma viagem num rio e deveríamos deixarmo-nos levar pela corrente até onde ela ou nós quiséssemos ir.

Na massagem tudo era delícia: o sabedor toque das mãos, o desbloquear e fluir da energia, o conforto do óleo aromatizado e aquecido, a pressão, o deslizar e sentir vigoroso da textura dos pêlos dos braços… tudo se misturava, se confundia e embriagava… o pensamento abandonava o corpo e esvoaçava e brincava com o fumo do incenso… a entrega era total…

Naquele dia, porém, foi-lhe dada a provar uma nova sensação. A certa altura o seu corpo não era massajado directamente por mãos, mas por pedras aquecidas. DELÍCIA DAS DELÍCIAS! As pedras deslocavam-se acompanhando as curvas do corpo numa suave, firme e morna harmonia…

Como competente profissional que era, ele apercebeu-se da reacção agradável que lhe proporcionava. As pedras deslizavam corpo acima, corpo abaixo, e o rosto dela iluminava-se com o mais sincero sorriso de prazer… Encorajado, ele prosseguiu. A troca das pedras aconteceu algumas vezes. A certa altura, ela sentiu-se acariciada nas nádegas . “Uiii…que bom”… gemeu entre dentes… Ele prosseguiu contornando-lhe o sexo… Ela afastou ligeiramente as pernas permitindo-lhe o acesso. A penetração aconteceu, confortavelmente quente, movimentada, deliciosa. Todo o seu corpo reagiu e vibrou. Não tardou que generoso orgasmo inundasse a mão do terapeuta, obrigando-o a interromper os movimentos pela incapacidade de segurar e manejar o objecto causador de tão agradável sensação.

Acalmado o ritmo respiratório ofegante dela, virou-se ligeiramente. A seu lado, aguardando a reacção, permanecia de pé o autor da proeza, ostentando no rosto um sorriso misto de prazer e malandrice de menino. Entreolharam-se.
- Gostaste ?? Foi bom ???!!! – inquiriu ele numa procura de confirmação verbal.
- A..DO..REI… Que fizeste ??!!! Aqueceste o vibrador??!!!!

Calma e confiantemente, retirando as mãos de trás das costas, com um sorriso meio divertido meio bondoso, exibiu uma das mãos, dizendo:
- Minha querida, foi apenas uma pedra…

Movida pela surpresa e pela onda de ternura que a invadiu, ergueu-se ligeiramente, segurou-lhe a mão entre as suas e beijou-a enternecida… Abraçaram-se duplamente felizes, cúmplices no prazer, completamente gratificados. Abraços daqueles que apenas os amigos sinceros sabem entender…

Uma vez mais a “viagem” tinha acontecido.

A julgar pelo que dizem, como deve ser óptimo conseguir deixar-se levar pela corrente, rio abaixo…. até onde quisermos ir…


Papoila_Rubra
Março 2006

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